segunda-feira, 12 de setembro de 2016

Odor vaginal: por que ainda o tememos?

Muitas mulheres têm vergonha e dificuldade em aceitar que a vulva tem odor característico. Assim, valem-se de uma infinidade de produtos e medidas para disfarçá-lo, podendo, com isso, comprometer a saúde ginecológica.

A dra. Renata Lopes Ribeiro, médica assistente da Clínica Obstétrica Fetal do Fleury e da Maternidade São Luiz, ambas em São Paulo, esclarece as principais dúvidas sobre o tema:


1) Toda vagina tem odor? Por que ele ocorre?
A vagina elimina naturalmente secreções e odores resultantes do processo fisiológico de renovação celular, por isso toda mulher tem secreção e odor vaginal. Na maioria das vezes, esse odor é suave, pouco perceptível e pode mudar de intensidade e característica de acordo com as fases do ciclo menstrual.

2) Como saber se o odor vaginal indica a presença de algum processo infeccioso?
É muito importante que as mulheres saibam que toda vulva tem um cheiro natural característico, e que não há nada de errado nisso. Porém, o odor vaginal pode indicar infecção caso mude suas características habituais, fique muito intenso e esteja acompanhado de outros sintomas como coceira, ardência, corrimento vaginal (especialmente de coloração amarelada ou esverdeada) ou incômodo ou dor durante a relação sexual. Nesses casos, os sintomas podem indicar um desequilíbrio na flora vaginal e a presença de processos infecciosos que podem precisar de tratamento ginecológico.

3) O que fazer na presença desses sinais e sintomas?
Esses são sintomas de alerta, por isso é recomendado que, na sua presença, a mulher procure um ginecologista para avaliação. Corrimento e odor forte podem indicar desde infecções mais leves, causadas por fungos e bactérias que se proliferam quando há um desequilíbrio da flora vaginal, até doenças sexualmente transmissíveis, como clamídia e gonorreia. Menos comumente, esses sintomas surgem devido à retenção de objetos, como absorvente íntimo ou camisinha, no interior da vagina.

4) As duchas vaginais são indicadas para a higiene vaginal? Por quê?
Para eliminar o odor vaginal e se sentir mais limpas, algumas mulheres recorrem às duchas vaginais com os mais diferentes produtos. Porém, elas não são recomendadas, uma vez que podem alterar a flora vaginal, atrapalhando a defesa do organismo, além de favorecerem a ascensão de micro-organismos de fora para dentro da vagina. Também podem, dependendo da intensidade, causar microlesões na mucosa vaginal.

5) O uso de sabonetes e lenços íntimos é recomendado para a higiene íntima?
Os sabonetes íntimos normalmente possuem pH mais ácido (entre 4,5 e 5,5), que se assemelha ao pH vulvar, e são hipoalergênicos. São dispensáveis, ou seja, não são necessários para realizar a higiene íntima adequada. No entanto, algumas mulheres se sentem bem ao usá-los, e podem fazê-lo desde que não os utilizem mais de uma vez ao dia, pois seu uso excessivo pode remover a proteção local e desidratar a pele e a mucosa vaginal.

O uso de lenços íntimos, por sua vez, pode ser um recurso útil quando a mulher não estiver em casa, mas é importante evitar ficções intensas e o uso demasiado.

6) O absorvente diário (protetor de calcinha) ajuda a evitar o odor vaginal?
O uso de absorvente diário é um hábito relativamente comum entre as mulheres, para evitar que a secreção vaginal fique na roupa íntima. Porém, essa prática dificulta a ventilação da área íntima e favorece a multiplicação de bactérias e fungos, portanto deve ser evitada.

7) Como higienizar a região íntima corretamente?
A higienização da vulva (região externa) deve ser feita uma vez ao dia durante o banho, sem fricções intensas, com água e sabonete neutro, durante um a três minutos. Dê preferência a sabonetes sem muita atividade detergente, sem perfume exagerado e que não tenham pH muito ácido. Os sabonetes de glicerina são uma boa opção. Sabonetes com muitos produtos químicos podem predispor a reações alérgicas. Evite, também, o uso de buchas e esponjas.

A higiene excessiva pode piorar o odor vaginal, pois remove a proteção natural local, predispondo a infecções e reações alérgicas.

8) Algumas mulheres reclamam de odor forte durante a menstruação. Como evitá-lo?
A higiene íntima não precisa ser alterada durante o período menstrual. No entanto, é preciso trocar os absorventes internos ou externos com frequência, pois se o tempo de troca não for respeitado, o sangue se acumulará no absorvente, podendo ocasionar mau cheiro.

9) Roupa justa ajuda a intensificar o odor vaginal? Qual a roupa íntima mais indicada?
A roupa muito justa dificulta a circulação de ar no local, o que predispõe ao acúmulo de fungos e bactérias que podem favorecer infecções e causar odor desagradável. Prefira roupas mais largas e opte por calcinhas de algodão.

10) É comum o odor diferir de uma mulher para outra? O que é possível fazer para reduzir o odor mais intenso?
Certas características individuais podem fazer com que algumas mulheres tenham um odor mais intenso, tais como: 1) transpiração excessiva: nesse caso, recomenda-se a troca mais frequente de roupa íntima e que se dê preferência para peças de algodão; 2) obesidade: as dobras da pele podem acumular secreções, pois isso é indicado que se dê atenção especial a essas áreas, mantendo-as sempre limpas e secas; e 3) alimentação: algumas mulheres relatam mudança no odor vaginal quando ingerem alimentos como determinados peixes, alho ou certos suplementos. No entanto, isso é pouco comum e basta evitar o consumo desses alimentos para que o odor volte às suas características habituais.

Sexo Oral
Se toda mulher tem odor na região íntima e essa é uma característica natural e fisiológica, por que tantas mulheres não se sentem à vontade durante o sexo, especialmente por terem vergonha do próprio cheiro?

Um número muito alto de mulheres desconhece o próprio corpo e sua sexualidade. A pesquisa Mosaico 2.0, divulgada em 2015 e coordenada pela psiquiatra Carmita Abdo, do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), entrevistou 3 mil pessoas entre 18 e 70 anos de sete regiões metropolitanas do país. Os dados revelam que 40% das mulheres não têm o hábito de se masturbar e 19,5% nunca o fizeram. Já entre os homens, apenas 17,3% não praticam a masturbação habitualmente.

Assim, não é surpresa que 44,4% das mulheres relatem algum grau de dificuldade em atingir o orgasmo e que sejam comuns as queixas de falta de libido nos consultórios médicos.

Por que isso ocorre? A resposta é simples: a desigualdade de gênero, comum à nossa cultura, limita a expressão da sexualidade feminina, que historicamente sempre foi reprimida.

Sem se conhecer nem saber o que de fato lhe dá prazer, como as mulheres podem se aceitar e desenvolver todo o potencial da sua sexualidade, ainda mais considerando que muitas sequer se julgam merecedoras do prazer sexual?

As meninas aprendem desde cedo que se tocar é algo feio e sujo, que deve ser evitado. Os adultos não costumam conversar com elas sobre a importância do prazer sexual e como é possível chegar a ele. Portanto, elas crescem sem estabelecer uma relação de intimidade com o próprio corpo.

Na vida adulta, a desigualdade entre homens e mulheres chega à cama. Elas temem ser julgadas por determinadas atitudes e comportamentos, o que limita o prazer sexual. São poucas as que conseguem expressar suas vontades e desejos com naturalidade, assim como são raros os homens dispostos a atendê-los.

Portanto, ainda é comum que a mulher e a vagina sejam vistas apenas como meios de dar prazer ao homem e trazer os filhos ao mundo. O órgão sexual feminino é tido como feio, desconhecido, algo que não deve ser encarado e aceito. A enorme quantidade de produtos que prometem diminuir e disfarçar o odor vaginal à disposição nas farmácias e drogarias são a prova de que a sociedade ainda não sabe lidar e aceitar o corpo feminino.

Outra pesquisa realizada em 2015 no estado de São Paulo, essa pela empresa Sex Wipes, com 1.252 homens heterossexuais e sexualmente ativos de 18 a 30 anos, revelou que 43% (4 em 10) não realizam sexo oral nas parceiras, embora 78% afirmem receber. Dos que o praticam nas companheiras, 35% dizem não gostar de fazê-lo. O motivo? Nojo: da aparência, do cheiro e da umidade da vulva.

Não há explicação lógica para alguém sentir nojo da pessoa que o atrai sexualmente que não envolva aspectos culturais machistas que nos distanciam, homens e mulheres, do corpo e da sexualidade feminina.


*Texto originalmente publicado no site Drauzio Varella

quarta-feira, 31 de agosto de 2016

Mães meninas

As meninas mais pobres têm maior risco de engravidar do que as mais ricas. É o que revela a pesquisa Pense 2015 (IBGE), feita com estudantes do 9° ano do ensino fundamental de todo o país.

Os dados mostram que 27,5% (723,5 mil) dos alunos do 9° ano, que têm em média 14 anos de idade, já mantiveram relações sexuais: 36% dos meninos e 19,5% das meninas.

Das meninas que fizeram sexo, 9% declararam ter engravidado alguma vez, o que representa 23.620 meninas. Dessas, a maioria cursava a rede pública (9,4%). Apenas 3,5% das meninas que já engravidaram frequentavam a rede privada de ensino.

Mas por que as meninas de classes sociais menos favorecidas ainda engravidam mais do que as de classe média e ricas, se quase 90% dos alunos afirmaram receber informações sobre gravidez e saúde sexual? A resposta é simples: informação por si só não é suficiente.

Em primeiro lugar, pensemos apenas no que oferecemos às meninas e deixemos os rapazes de lado, pois é sabido que os homens, tanto os mais ricos quanto os mais pobres, em geral se importam pouco com a contracepção, embora essa devesse ser tarefa de todos, homens e mulheres.

Proporcionamos às mais ricas uma educação de melhor qualidade, que lhes permite criar expectativas em relação ao futuro, além de mais oportunidades. Assim, sonhos e planos como viajar, entrar em uma faculdade, conhecer outros lugares e pessoas e aprender novas habilidades quase sempre antecedem o desejo da maternidade.

Quando essas meninas entram em idade fértil, conversamos com elas sobre sexo e as levamos ao ginecologista, que passa a acompanhá-las com frequência e a orientá-las na escolha do melhor método anticoncepcional, a que certamente terão acesso.

Se os anticoncepcionais por acaso falharem, pagamos-lhes o aborto em clínicas onde podem contar com médicos que lhes garantam segurança. Para as mulheres de classe social mais alta, a criminalização do aborto pode ser resolvida com dinheiro.

As meninas mais ricas não se sentem socialmente pressionadas a engravidar; suas amigas não têm filhos e a elas são oferecidos vários papéis sociais que não o de mãe.

Com um ou mais filhos nos braços, as meninas de classes sociais mais baixas que mal saíram da infância não conseguem dar seguimento aos estudos, tampouco melhorar as condições de vida da família. Acabam destinadas a serviços mal remunerados, de onde tiram o sustento dos filhos, muitas vezes sem nenhum apoio.

Para as mulheres de classes mais abastadas, a maternidade é, na maioria das ocasiões, uma escolha e não um destino do qual não se pode fugir. Por que aceitamos condenar as mais pobres a uma realidade que evitamos para nossas filhas?

*Texto originalmente publicado na página do "Quebrando o Tabu"

segunda-feira, 15 de agosto de 2016

Homens e a mania dos nudes sem consentimento

Imagine que você tenha acabado de acordar e de tomar café da manhã e esteja aproveitando os únicos minutos de folga que terá no dia para dar uma olhada nas mensagens do Facebook. De repente, percebe que recebeu uma mensagem de um desconhecido. Mais curiosa do que receosa, clica nela. Então, eis que surge em sua tela do computador um pênis ereto com a legenda “Oi, gata, vamos conversar?”.

Agora suponha que você esteja solteira há algum tempo e tenha cedido aos convites de amigos para entrar no Tinder, aplicativo que facilita encontros entre as pessoas. Você não curte muito a ideia, até ‘conhecer’ um rapaz que lhe parece interessante. Vocês trocam mensagens cujo conteúdo parece saído de uma festa de adolescentes: um gracejo sem jeito aqui, uma pergunta sobre a profissão acolá. Despedem-se sem grande entusiasmo. Dois dias depois, ei-la: a foto do pinto. Sem aviso prévio, sem pedido, sem intimidade que possa ter tornado possível a ousadia.

Essas duas histórias aconteceram com amigas minhas, mas são inúmeros os casos de mulheres que reclamam de homens, a maioria estranhos ou apenas conhecidos, que mandam fotos de pênis sem a menor cerimônia. É tão frequente que já virou piada entre as mulheres.

Sempre me surpreendi com a admiração e o orgulho que os homens sentem pelo seu órgão sexual. É uma verdadeira adoração, quase um culto, a ponto de não se constrangerem ao mandar fotos do dito-cujo a desconhecidas que nunca sequer lhe dirigiram a palavra. Tem que ter muita autoconfiança, né?

Desconfio, inclusive, que Freud tenha criado sua teoria sobre a inveja que as mulheres teriam do pênis ao receber uma bronca de uma senhora que não gostou de ver o órgão do médico aparecer sem ser convidado, fazendo o famoso psicanalista pensar: "Ah, não curtiu ver um pinto surgir aleatoriamente na sua frente? Isso porque as mulheres são recalcadas, têm inveja do nosso membro forte e viril!"

Brincadeiras à parte, assim como conheço inúmeras mulheres que recebem essas fotos, não sei de uma sequer que ache isso legal. Porque, sim, algumas de nós (surpresa: não todas!) gostam de pinto, mas do cara de quem elas estão a fim ou pelo menos têm algum interesse sexual. Mandar fotos íntimas tem a ver com aquela palavrinha mágica que muitos homens fazem questão de ignorar: consentimento.

Não consigo deixar de pensar no intuito da foto. Por acaso esses homens acham que alguma mulher vai olhar para ela e dizer: “Ah, que pinto lindo, vou convidar o dono para sair”? Se a estratégia dá certo, desconheço. De todo jeito, posso afirmar que nunca a vi funcionar.

Acredito que certos homens façam isso para afirmar poder. Usam o falo para intimidar, para mostrar que dominam, não para atrair. Além de exibir um enorme desconhecimento da sexualidade humana, que envolve muito mais do que órgãos sexuais, eles parecem dizer: “Vejam como sou viril, macho e poderoso, tenho pinto!”.

Se as mulheres fossem vingativas, exporiam esses homens na internet. Talvez fosse o único modo de constranger os rapazes e impedi-los de continuar a nos incomodar. Por outro lado, era capaz de eles gostarem e começarem a mandar mais fotos. Não sei.

Então, peço encarecidamente: guardem o pau para momentos de intimidade ou pelo menos deixe para exibi-lo quando lhe solicitarem. Por mais orgulho que você tenha dele, ninguém quer começar o dia com sua afirmação de macheza e poder em forma de falo. Quando quisermos, a gente avisa.


*Texto originalmente publicado na página do "Quebrando o Tabu"

terça-feira, 9 de agosto de 2016

Homens e o debate sobre igualdade de gênero

Acho importante atrair os homens para o debate sobre igualdade de gênero e direitos da mulher, ainda mais se pensarmos que são eles que ainda detêm os principais cargos de poder.

E, sim, vejo muitos interessados em debater, em escutar nossas demandas, principalmente os mais jovens.

Uma crítica comum que os homens fazem ao movimento feminista é que não os deixamos opinar e os colocamos logo de cara sob suspeita, como inimigos.

Eu convido os homens que reclamam a inverter o jogo e, em vez de acusar, se perguntar: por que será que isso acontece? Será que as feministas são todas radicais que odeiam os homens e querem combatê-los? Será que o feminismo é sobre homens?

O que ocorre, caros, é que a maioria dos homens age com desonestidade ao falar de feminismo. Não escuta, não se informa, pega trechos de discursos fora de contexto ou unifica o movimento em uma caixa que lhes convém.

E isso irrita porque nos desqualifica, nos resume a um bando de malucas radicais que só querem xingar homem.

Antes de falar sobre qualquer coisa, é preciso saber sobre o que se fala, ter humildade para escutar, estudar, pesquisar.

Ou os homens baixam um pouco a bola (sei que é difícil para quem sempre foi reconhecido como certo) ou não vai haver diálogo. Infelizmente.


*Texto originalmente publicado no site "Casa da Mãe Joanna"

Relativização da violência contra a mulher

“Eu queria primeiro deixá-la ciente do quanto ela prejudicou minha carreira. [...] Presenciei tudo e sei o quanto estávamos em clima de descontração. Errei por ter feito as brincadeiras que fiz com uma pessoa que não conheço”, disse MC Biel à RedeTV! sobre o episódio de assédio a uma jornalista protagonizado por ele, em maio deste ano.

Além de tentar inverter o jogo fazendo-se de vítima, Biel relativiza a violência do assédio, dizendo que fez uma “brincadeira”. Se assim fosse, a moça que o denunciou, além de ser mal-intencionada por tentar acabar com a carreira do rapaz, ainda não teria senso de humor.

Há quarenta anos, o playboy Doca Street comovia o país ao chorar diante das câmeras de TV depois de assassinar a companheira Ângela Diniz com quatro tiros (três no rosto). A família e os amigos de Ângela tiveram de assistir a um julgamento que transformava a vítima em uma mulher manipuladora, infiel, violenta, sexualmente incontrolável e provocante que cavou a própria sepultura.

Doca passou pouco mais de 5 anos na cadeia, retomou a vida, casou-se, teve filhos, escreveu um livro sobre o caso e ainda disse em entrevista à revista IstoÉ: “A Ângela até nem sofreu, porque morreu. Quem fica, sofre”. É de dar pena, não?

Quarenta anos é bastante tempo, e muita coisa mudou de lá para cá. No entanto, as mulheres ainda continuam sendo culpabilizadas pela violência que sofrem.

A facilidade com que assassinos, estupradores, assediadores e espancadores se dizem arrependidos e tentam comover a sociedade ao justificar suas atitudes é chocante. E eles fazem isso por um único motivo: funciona.

Não conheço nenhum outro crime em que se dizer arrependido e colocar a responsabilidade na vítima sejam uma tática de defesa tão bem sucedida. Ninguém diz a uma vítima de assalto que ela provocou o crime, muito menos um ladrão tem o descaramento de afirmar que a denúncia de suas vítimas atrapalhou sua vida.

Por que, então, aceitamos que homens justifiquem seus crimes quando as vítimas são mulheres? Por que buscamos respostas na atitude e no comportamento de quem sofreu a agressão para explicar a violência do agressor? Até quando vamos dar atenção e espaço na mídia e na sociedade em geral para homens destilarem seu “arrependimento” em busca de redenção?

Dizer que nada justifica a violência é chover no molhado. Contudo, isso não se aplica quando a vítima é mulher.

Como veem, 40 anos não é tanto tempo assim.

*Texto originalmente publicado na página do "Quebrando o Tabu"

quarta-feira, 27 de julho de 2016

Amores e montanhas

Que não existe só uma maneira de se relacionar afetivamente, acho que a maioria das pessoas, principalmente as mais jovens, concorda. Os seres humanos são diversos, assim como seus desejos e sentimentos. Pensar que há apenas um modelo que dê conta de todo mundo é, no mínimo, muita inocência.

Foi-se o tempo em que somente a relação heternormativa e monogâmica era a única possibilidade. Hoje as opções, ainda bem, são mais amplas. Existem muitos modelos de relacionamento possíveis, e cada um pode escolher como e com quem quer se relacionar amorosamente. No entanto, essa liberdade de escolha não é, de fato, uma possibilidade real para todas as mulheres.

Educadas e ensinadas a acreditar no amor romântico e a esperar mais dos homens do que de si mesmas, as que percebem que estão embarcando em uma furada ao buscar um relacionamento amoroso que satisfaça todas suas necessidades vivem um dilema: como ir contra tudo aquilo que a sociedade espera delas sem as ferramentas necessárias?

É como se de repente dissessem a um grupo de crianças: “Olha, vocês não precisam brincar só de casinha, podem escalar montanhas também, só que não vamos lhes dar o equipamento e o treino necessários”. A maioria vai preferir a velha casinha, que embora não seja lá essas coisas, pelo menos é segura e conhecida; as que se aventurarem na montanha provavelmente vão se machucar feio.

Para se relacionar com o outro em pé de igualdade, é preciso admitir seus limites, seus desejos, suas expectativas. É necessário, acima de tudo, aceitar-se e respeitar-se, conhecer, gostar e confiar em si, e isso não ensinam às mulheres. Ao contrário, ensinam-nos a buscar a felicidade no outro: no parceiro ideal, no marido perfeito, nos filhos que virão, na família a quem deveremos dedicar a vida.

As diversas possibilidades hoje disponíveis, sem os meios necessários para vivê-las em sua plenitude, tornam-se, portanto, uma armadilha perigosa.

O resultado é que muitas mulheres continuam à mercê dos parceiros, mesmo que vivenciando modelos de relacionamento diferentes. São eles que dão o tom. Porque o problema não está nos modelos, apenas, mas no fato de que às mulheres não são dadas as oportunidades de desenvolver e expressar seus desejos.

A verdadeira liberdade não consiste apenas em oferecer possibilidades, mas em fornecer ferramentas para que todos e todas tenham condições de dela desfrutar. Qualquer coisa fora disso é migalha, um arremedo de liberdade. E uma cilada para os incautos.

*Texto originalmente publicado na página do "Quebrando o Tabu"

quinta-feira, 21 de julho de 2016

A desculpa do crime passional

Há cinco dias, Cristiane de Souza Andrade foi assassinada a facadas na frente da filha de 7 anos, quando caminhava pela rua próxima à sua casa, no Rio de Janeiro. A cena da menina pedindo ajuda, coberta pelo sangue da mãe, ganhou os noticiários do Brasil e do mundo.

O que parecia uma tentativa de assalto malsucedida ganhou contornos de “crime passional”. Rojelson Santos Baptista, assassino confesso, contou que mantivera um relacionamento amoroso com a vítima, que se recusara a continuar a relação, motivando o crime. A família de Cristiane, no entanto, nega veementemente a versão do criminoso, afirmando que ela vivia com outro homem havia alguns anos. Apesar disso, a Policia Civil, mesmo sem divulgar nenhuma prova concreta, assumiu a versão dada por Rojelson como verdadeira.

Infelizmente, quem poderia esclarecer os fatos, a própria Cristiane, não tem como se defender da acusação de trair o namorado e ainda abandonar o amante inconformado, mas não me surpreenderia se o assassino estivesse inventando a história. Na verdade, ele tem todos os motivos para fazê-lo.

Acusado anteriormente de tentar matar uma ex-companheira também a facadas, Rojelson foi inocentado da acusação. Pôde desfrutar da liberdade até matar Cristiane diante da filha pequena. Ele não é exceção. Agredir uma mulher não costuma levar quase ninguém à cadeia: apenas 7% dos agressores domésticos são presos ou aguardam julgamento no Brasil (Mapa da Violência 2015).

Os crimes ditos passionais, que hoje são considerados feminicídios por lei e nada têm a ver com paixão e sim com misoginia e machismo, sempre foram tolerados pela sociedade. Tanto é que a cada uma hora e meia uma mulher é assassinada no Brasil apenas por ser mulher (Ipea, 2012). São 472 mulheres mortas por mês, a maioria por parentes, parceiros ou ex-parceiros (mais de 50%, segundo o Mapa da Viol.) que já agrediram ou ameaçaram a vítima anteriormente.

Rojelson tem todas as razões do mundo para difamar e tentar responsabilizar Cristiane de alguma forma, embora nada justifique seu assassinato. Sabe que terá mais chances de sensibilizar a Justiça posando de mal-amado e ferido emocionalmente por uma mulher que ousou lhe dizer não, pois já confirmou que a tática costuma dar certo. Para a polícia e demais autoridades, também é mais fácil acreditar na história do assassino, afinal o Rio de Janeiro sediará as Olimpíadas em breve e ninguém precisa de mais uma história de latrocínio para escancarar a falta de segurança pública da cidade, não é mesmo?

O fato é que poucos se importam com as milhares de Cristianes que morrem todos os anos no Brasil, muito menos com o que dizem delas. Culpar as vítimas, principalmente quando são mulheres, é o que fazemos de melhor.

*Texto originalmente publicado na página do "Quebrando o Tabu"