segunda-feira, 15 de agosto de 2016

Homens e a mania dos nudes sem consentimento

Imagine que você tenha acabado de acordar e de tomar café da manhã e esteja aproveitando os únicos minutos de folga que terá no dia para dar uma olhada nas mensagens do Facebook. De repente, percebe que recebeu uma mensagem de um desconhecido. Mais curiosa do que receosa, clica nela. Então, eis que surge em sua tela do computador um pênis ereto com a legenda “Oi, gata, vamos conversar?”.

Agora suponha que você esteja solteira há algum tempo e tenha cedido aos convites de amigos para entrar no Tinder, aplicativo que facilita encontros entre as pessoas. Você não curte muito a ideia, até ‘conhecer’ um rapaz que lhe parece interessante. Vocês trocam mensagens cujo conteúdo parece saído de uma festa de adolescentes: um gracejo sem jeito aqui, uma pergunta sobre a profissão acolá. Despedem-se sem grande entusiasmo. Dois dias depois, ei-la: a foto do pinto. Sem aviso prévio, sem pedido, sem intimidade que possa ter tornado possível a ousadia.

Essas duas histórias aconteceram com amigas minhas, mas são inúmeros os casos de mulheres que reclamam de homens, a maioria estranhos ou apenas conhecidos, que mandam fotos de pênis sem a menor cerimônia. É tão frequente que já virou piada entre as mulheres.

Sempre me surpreendi com a admiração e o orgulho que os homens sentem pelo seu órgão sexual. É uma verdadeira adoração, quase um culto, a ponto de não se constrangerem ao mandar fotos do dito-cujo a desconhecidas que nunca sequer lhe dirigiram a palavra. Tem que ter muita autoconfiança, né?

Desconfio, inclusive, que Freud tenha criado sua teoria sobre a inveja que as mulheres teriam do pênis ao receber uma bronca de uma senhora que não gostou de ver o órgão do médico aparecer sem ser convidado, fazendo o famoso psicanalista pensar: "Ah, não curtiu ver um pinto surgir aleatoriamente na sua frente? Isso porque as mulheres são recalcadas, têm inveja do nosso membro forte e viril!"

Brincadeiras à parte, assim como conheço inúmeras mulheres que recebem essas fotos, não sei de uma sequer que ache isso legal. Porque, sim, algumas de nós (surpresa: não todas!) gostam de pinto, mas do cara de quem elas estão a fim ou pelo menos têm algum interesse sexual. Mandar fotos íntimas tem a ver com aquela palavrinha mágica que muitos homens fazem questão de ignorar: consentimento.

Não consigo deixar de pensar no intuito da foto. Por acaso esses homens acham que alguma mulher vai olhar para ela e dizer: “Ah, que pinto lindo, vou convidar o dono para sair”? Se a estratégia dá certo, desconheço. De todo jeito, posso afirmar que nunca a vi funcionar.

Acredito que certos homens façam isso para afirmar poder. Usam o falo para intimidar, para mostrar que dominam, não para atrair. Além de exibir um enorme desconhecimento da sexualidade humana, que envolve muito mais do que órgãos sexuais, eles parecem dizer: “Vejam como sou viril, macho e poderoso, tenho pinto!”.

Se as mulheres fossem vingativas, exporiam esses homens na internet. Talvez fosse o único modo de constranger os rapazes e impedi-los de continuar a nos incomodar. Por outro lado, era capaz de eles gostarem e começarem a mandar mais fotos. Não sei.

Então, peço encarecidamente: guardem o pau para momentos de intimidade ou pelo menos deixe para exibi-lo quando lhe solicitarem. Por mais orgulho que você tenha dele, ninguém quer começar o dia com sua afirmação de macheza e poder em forma de falo. Quando quisermos, a gente avisa.


*Texto originalmente publicado na página do "Quebrando o Tabu"

terça-feira, 9 de agosto de 2016

Homens e o debate sobre igualdade de gênero

Acho importante atrair os homens para o debate sobre igualdade de gênero e direitos da mulher, ainda mais se pensarmos que são eles que ainda detêm os principais cargos de poder.

E, sim, vejo muitos interessados em debater, em escutar nossas demandas, principalmente os mais jovens.

Uma crítica comum que os homens fazem ao movimento feminista é que não os deixamos opinar e os colocamos logo de cara sob suspeita, como inimigos.

Eu convido os homens que reclamam a inverter o jogo e, em vez de acusar, se perguntar: por que será que isso acontece? Será que as feministas são todas radicais que odeiam os homens e querem combatê-los? Será que o feminismo é sobre homens?

O que ocorre, caros, é que a maioria dos homens age com desonestidade ao falar de feminismo. Não escuta, não se informa, pega trechos de discursos fora de contexto ou unifica o movimento em uma caixa que lhes convém.

E isso irrita porque nos desqualifica, nos resume a um bando de malucas radicais que só querem xingar homem.

Antes de falar sobre qualquer coisa, é preciso saber sobre o que se fala, ter humildade para escutar, estudar, pesquisar.

Ou os homens baixam um pouco a bola (sei que é difícil para quem sempre foi reconhecido como certo) ou não vai haver diálogo. Infelizmente.


*Texto originalmente publicado no site "Casa da Mãe Joanna"

Relativização da violência contra a mulher

“Eu queria primeiro deixá-la ciente do quanto ela prejudicou minha carreira. [...] Presenciei tudo e sei o quanto estávamos em clima de descontração. Errei por ter feito as brincadeiras que fiz com uma pessoa que não conheço”, disse MC Biel à RedeTV! sobre o episódio de assédio a uma jornalista protagonizado por ele, em maio deste ano.

Além de tentar inverter o jogo fazendo-se de vítima, Biel relativiza a violência do assédio, dizendo que fez uma “brincadeira”. Se assim fosse, a moça que o denunciou, além de ser mal-intencionada por tentar acabar com a carreira do rapaz, ainda não teria senso de humor.

Há quarenta anos, o playboy Doca Street comovia o país ao chorar diante das câmeras de TV depois de assassinar a companheira Ângela Diniz com quatro tiros (três no rosto). A família e os amigos de Ângela tiveram de assistir a um julgamento que transformava a vítima em uma mulher manipuladora, infiel, violenta, sexualmente incontrolável e provocante que cavou a própria sepultura.

Doca passou pouco mais de 5 anos na cadeia, retomou a vida, casou-se, teve filhos, escreveu um livro sobre o caso e ainda disse em entrevista à revista IstoÉ: “A Ângela até nem sofreu, porque morreu. Quem fica, sofre”. É de dar pena, não?

Quarenta anos é bastante tempo, e muita coisa mudou de lá para cá. No entanto, as mulheres ainda continuam sendo culpabilizadas pela violência que sofrem.

A facilidade com que assassinos, estupradores, assediadores e espancadores se dizem arrependidos e tentam comover a sociedade ao justificar suas atitudes é chocante. E eles fazem isso por um único motivo: funciona.

Não conheço nenhum outro crime em que se dizer arrependido e colocar a responsabilidade na vítima sejam uma tática de defesa tão bem sucedida. Ninguém diz a uma vítima de assalto que ela provocou o crime, muito menos um ladrão tem o descaramento de afirmar que a denúncia de suas vítimas atrapalhou sua vida.

Por que, então, aceitamos que homens justifiquem seus crimes quando as vítimas são mulheres? Por que buscamos respostas na atitude e no comportamento de quem sofreu a agressão para explicar a violência do agressor? Até quando vamos dar atenção e espaço na mídia e na sociedade em geral para homens destilarem seu “arrependimento” em busca de redenção?

Dizer que nada justifica a violência é chover no molhado. Contudo, isso não se aplica quando a vítima é mulher.

Como veem, 40 anos não é tanto tempo assim.

*Texto originalmente publicado na página do "Quebrando o Tabu"

quarta-feira, 27 de julho de 2016

Amores e montanhas

Que não existe só uma maneira de se relacionar afetivamente, acho que a maioria das pessoas, principalmente as mais jovens, concorda. Os seres humanos são diversos, assim como seus desejos e sentimentos. Pensar que há apenas um modelo que dê conta de todo mundo é, no mínimo, muita inocência.

Foi-se o tempo em que somente a relação heternormativa e monogâmica era a única possibilidade. Hoje as opções, ainda bem, são mais amplas. Existem muitos modelos de relacionamento possíveis, e cada um pode escolher como e com quem quer se relacionar amorosamente. No entanto, essa liberdade de escolha não é, de fato, uma possibilidade real para todas as mulheres.

Educadas e ensinadas a acreditar no amor romântico e a esperar mais dos homens do que de si mesmas, as que percebem que estão embarcando em uma furada ao buscar um relacionamento amoroso que satisfaça todas suas necessidades vivem um dilema: como ir contra tudo aquilo que a sociedade espera delas sem as ferramentas necessárias?

É como se de repente dissessem a um grupo de crianças: “Olha, vocês não precisam brincar só de casinha, podem escalar montanhas também, só que não vamos lhes dar o equipamento e o treino necessários”. A maioria vai preferir a velha casinha, que embora não seja lá essas coisas, pelo menos é segura e conhecida; as que se aventurarem na montanha provavelmente vão se machucar feio.

Para se relacionar com o outro em pé de igualdade, é preciso admitir seus limites, seus desejos, suas expectativas. É necessário, acima de tudo, aceitar-se e respeitar-se, conhecer, gostar e confiar em si, e isso não ensinam às mulheres. Ao contrário, ensinam-nos a buscar a felicidade no outro: no parceiro ideal, no marido perfeito, nos filhos que virão, na família a quem deveremos dedicar a vida.

As diversas possibilidades hoje disponíveis, sem os meios necessários para vivê-las em sua plenitude, tornam-se, portanto, uma armadilha perigosa.

O resultado é que muitas mulheres continuam à mercê dos parceiros, mesmo que vivenciando modelos de relacionamento diferentes. São eles que dão o tom. Porque o problema não está nos modelos, apenas, mas no fato de que às mulheres não são dadas as oportunidades de desenvolver e expressar seus desejos.

A verdadeira liberdade não consiste apenas em oferecer possibilidades, mas em fornecer ferramentas para que todos e todas tenham condições de dela desfrutar. Qualquer coisa fora disso é migalha, um arremedo de liberdade. E uma cilada para os incautos.

*Texto originalmente publicado na página do "Quebrando o Tabu"

quinta-feira, 21 de julho de 2016

A desculpa do crime passional

Há cinco dias, Cristiane de Souza Andrade foi assassinada a facadas na frente da filha de 7 anos, quando caminhava pela rua próxima à sua casa, no Rio de Janeiro. A cena da menina pedindo ajuda, coberta pelo sangue da mãe, ganhou os noticiários do Brasil e do mundo.

O que parecia uma tentativa de assalto malsucedida ganhou contornos de “crime passional”. Rojelson Santos Baptista, assassino confesso, contou que mantivera um relacionamento amoroso com a vítima, que se recusara a continuar a relação, motivando o crime. A família de Cristiane, no entanto, nega veementemente a versão do criminoso, afirmando que ela vivia com outro homem havia alguns anos. Apesar disso, a Policia Civil, mesmo sem divulgar nenhuma prova concreta, assumiu a versão dada por Rojelson como verdadeira.

Infelizmente, quem poderia esclarecer os fatos, a própria Cristiane, não tem como se defender da acusação de trair o namorado e ainda abandonar o amante inconformado, mas não me surpreenderia se o assassino estivesse inventando a história. Na verdade, ele tem todos os motivos para fazê-lo.

Acusado anteriormente de tentar matar uma ex-companheira também a facadas, Rojelson foi inocentado da acusação. Pôde desfrutar da liberdade até matar Cristiane diante da filha pequena. Ele não é exceção. Agredir uma mulher não costuma levar quase ninguém à cadeia: apenas 7% dos agressores domésticos são presos ou aguardam julgamento no Brasil (Mapa da Violência 2015).

Os crimes ditos passionais, que hoje são considerados feminicídios por lei e nada têm a ver com paixão e sim com misoginia e machismo, sempre foram tolerados pela sociedade. Tanto é que a cada uma hora e meia uma mulher é assassinada no Brasil apenas por ser mulher (Ipea, 2012). São 472 mulheres mortas por mês, a maioria por parentes, parceiros ou ex-parceiros (mais de 50%, segundo o Mapa da Viol.) que já agrediram ou ameaçaram a vítima anteriormente.

Rojelson tem todas as razões do mundo para difamar e tentar responsabilizar Cristiane de alguma forma, embora nada justifique seu assassinato. Sabe que terá mais chances de sensibilizar a Justiça posando de mal-amado e ferido emocionalmente por uma mulher que ousou lhe dizer não, pois já confirmou que a tática costuma dar certo. Para a polícia e demais autoridades, também é mais fácil acreditar na história do assassino, afinal o Rio de Janeiro sediará as Olimpíadas em breve e ninguém precisa de mais uma história de latrocínio para escancarar a falta de segurança pública da cidade, não é mesmo?

O fato é que poucos se importam com as milhares de Cristianes que morrem todos os anos no Brasil, muito menos com o que dizem delas. Culpar as vítimas, principalmente quando são mulheres, é o que fazemos de melhor.

*Texto originalmente publicado na página do "Quebrando o Tabu"

sexta-feira, 10 de junho de 2016

Violência depois da violência

Os casos recentes de violência contra a mulher com maior repercussão na mídia deixam claro para quem quiser ver que as vítimas sofreram pelo menos duas violências: a do ato criminoso em si e a praticada pela sociedade quando de sua denúncia.

Ao contrário da forma como tratamos a maioria dos delitos e crimes, somos coniventes com a violência contra a mulher e impiedosos com as vítimas. Embora ninguém questione o caráter e o comportamento de quem tem o carro roubado, por exemplo, a vida das mulheres vítimas de agressões é sempre devastada. Perguntas sobre sua vida sexual, seu comportamento, suas roupas, hábitos e práticas são comuns, independentemente do crime sofrido. A falha no atendimento adequado dessas mulheres também é recorrente.

Por outro lado, aceitamos qualquer desculpa esfarrapada que justifique as violências: a saia curta, o gênio ruim, o fato de ter bebido demais, o comportamento dito libertino, o jeito pouco incisivo de se comunicar. Qualquer pretexto serve para colocar em dúvida a violência cometida e a reputação de quem a sofreu.

Será que à jornalista que denunciou o assédio do funkeiro Biel não faltaria senso de humor para encarar suas piadinhas? A vítima do estupro coletivo no Rio não teria aceitado fazer sexo com um bando de homens, a maioria desconhecida, em um quarto imundo, por prazer? A mulher do ator Johnny Depp não estaria atrás de fama e dinheiro ao solicitar uma ordem de restrição temporária em razão de violência doméstica?

É claro que toda denúncia deve ser investigada e não podemos sair condenando as pessoas sem provas. Mas me impressiona a facilidade com que duvidamos das vítimas quando se trata de violência de gênero.

Esse tipo de agressão se ampara em dois pilares básicos: a ideia de supremacia masculina e a de inferioridade feminina. Os homens que a cometem deixam claro sua dominação, o poder que exercem sobre as mulheres. E a forma como a sociedade trata as vítimas que ousam denunciar a violência mostra como as mulheres são vistas como inferiores, como seres que, antes e acima de tudo, merecem descrédito.

Pode parecer exagero, mas é exatamente essa a ideia por trás dos casos de violência de gênero, seja ela doméstica ou não. Não à toa, há tanta subnotificação de ocorrências de violência contra a mulher.

Por isso é tão importante tratar a questão de gênero nas escolas, para que as crianças aprendam a condenar a ideia de supremacia masculina. Enquanto evitarmos encarar e combater o machismo de verdade, as mulheres continuarão a sofrer caladas, para evitar outra violência, dessa vez por parte de quem deveria protegê-las: a sociedade e o Estado.


*Texto originalmente publicado na página do "Quebrando o Tabu"

segunda-feira, 30 de maio de 2016

Homens e cultura do estupro

Preciso confessar: sou uma assassina em potencial. Isso significa que, embora eu nunca tenha matado alguém, tenho todas as condições de fazê-lo.

E o que me impede de cometer um assassinato? Muitos fatores. A educação que recebi, totalmente contrária à ideia de tirar a vida de outro semelhante; a coerção da sociedade, que por meio de suas normas simbólicas e manifestas me mostra desde que nasci que matar alguém é crime; a cultura em que vivo; entre outros.

Se as condições fossem diferentes, eu poderia matar. Isso faz de mim uma assassina? Não. Mas eu sei que posso assassinar alguém. O fato de não fazê-lo é uma escolha, embora influenciada pelos motivos citados acima.

Quando as mulheres dizem que os homens são estupradores em potencial é isto que estamos querendo dizer: os homens têm potencial de estuprar. Nem todos o farão, claro, mas eles têm um papel importante como possíveis atores.

Todo mundo se chocou com o estupro coletivo da menina no Rio. Realmente, foi um crime horrendo. Mas me pergunto: quantas dessas pessoas não se surpreenderiam se soubessem que seus pais, irmãos, filhos, maridos, primos e amigos mexem com mulheres na rua, passam a mão em meninas nas baladas, tratam mal as parceiras, não respeitam as colegas de trabalho e riem de piadas machistas? Talvez muitos dos homens que se horrorizaram com o caso façam eles mesmos essas coisas, sem nem relacioná-las com estupro.

Mas essas atitudes têm, sim, a ver com estupro, que é considerado crime, mas acontece a todo instante. Nem sempre são casos tão extremos como o do Rio, aliás, a maioria é cometida por colegas, maridos, namorados, parentes, vizinhos, homens que fazem parte do dia a dia da vítima.

Estupro é apenas umas das manifestações de uma violência contra a mulher que é estrutural e contínua, que acontece todos os dias, com todas as mulheres.

Então, assim como achamos que é nossa função como sociedade coibir assassinatos e educar nossos filhos para que não sejam assassinos, devemos assumir a responsabilidade de criar uma sociedade livre de violência de gênero e mais igualitária. Uma sociedade em que as mulheres sejam valorizadas, em que seu consentimento seja respeitado e sua voz, ouvida.

Isso é tarefa de todos nós. Ouçam as mulheres.

*Texto originalmente publicado na página do "Quebrando o Tabu"