terça-feira, 8 de dezembro de 2015

Estuprador nem sempre é doente

Na semana passada, chamou a atenção da mídia o caso do pai que detinha a guarda e estuprava sistematicamente as cinco filhas de 5 a 14 anos, no Amapá. Ao ser preso, ele disse: “Era rapidinho, não fazia nada não, era rapidinho”.

É difícil encontrar quem não se choque com essa história. Uma passada rápida pelos comentários dos mais importantes sites de notícia revela pelo menos duas posturas que chamam a atenção.

A maioria das pessoas quer que o pai estuprador sofra muito na cadeia, antes de morrer lenta e cruelmente. Chamam-no de “monstro”, “pedófilo” e “doente mental”. Outro grupo pergunta, raivoso, onde estava a mãe das crianças, que deixou a guarda de filhas mulheres com um homem, sem lembrar que esse “homem” é o pai das meninas, que devia protegê-las e tinha tanta responsabilidade no cuidado com as filhas quanto a mãe.

Essas duas atitudes falam muito sobre a cultura do estupro no Brasil. É comum chamarmos os estupradores de “monstros” e “doentes”. Se isso fosse verdade, então teríamos mais de 47 mil homens com problemas mentais apenas no ano de 2014, segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Isso sem contar os casos que não são denunciados.

Sabemos que os estupradores não são, em sua maioria, doentes mentais ou pedófilos, muito menos monstros. Se fossem, os estupros seriam raros, e o pai em questão não trataria as acusações com tanta naturalidade, como fazem muitos estupradores.

Obviamente, isso não significa dizer que qualquer homem se tornará estuprador, mas que parte deles considera o estupro algo aceitável. Muitos homens sentem prazer em dominar uma mulher, em submetê-la ao pavor, em vê-la imobilizada, sem ação.

A outra postura vista nos comentários, a que tenta responsabilizar a mãe das meninas, é nada mais, nada menos que a boa e velha tática de colocar a culpa na mulher. Como é muito pesado culpar crianças (acreditam, alguns o fizeram em comentários de embrulhar o estômago), acusam a mãe, que não estava presente (onde já se viu?).

Está mais do que na hora de reconhecermos que vivemos em uma cultura em que o estupro é condenável na teoria, mas incentivado e tolerado no dia a dia. Transformar os estupradores em monstros ou colocar a culpa na mulher não vai mudar essa realidade.

A imensa maioria dos estupradores não é composta por doentes mentais, muitos são inclusive conhecidos das vítimas. Devem ser presos, julgados e punidos de acordo com a lei. Eles são os culpados, eles são os criminosos. Não são monstros, não são doentes mentais: são homens comuns.


*Texto originalmente publicado na página do "Quebrando o Tabu"

terça-feira, 1 de dezembro de 2015

Meu amigo secreto


A campanha ‪#‎meuamigosecreto‬ surgiu, até onde sei, espontaneamente na internet. Não foi organizada nem tem autoria conhecida. Na linha da‪#‎primeiroassédio‬, esta, sim, criada com objetivo claro e definido pelo Think Olga, incentiva as mulheres a falar sobre atitudes machistas de amigos e conhecidos. Diferentemente da primeira, gerou muitas críticas. Listo aqui algumas considerações necessárias:


1) Por que a campanha é importante para as mulheres?
A internet trouxe algo valioso para as minorias, inimaginável tempos atrás: a possiblidade de se comunicar, de somar esforços e unir pessoas que passam pelos mesmos problemas mas que, de outro modo, nunca se encontrariam. Isso fortalece os indivíduos, os grupos e, consequentemente, a luta por direitos.
A campanha #meuamigosecreto é bacana porque as mulheres podem denunciar situações machistas pelas quais passam no dia a dia e conversar sobre elas, trocar informações, encontrar apoio entre si. Desse modo, elas se fortalecem. Também tem como mérito o fato de revelar como o machismo é intrínseco na nossa sociedade, como permeia o cotidiano e “contamina” as pessoas.


2) Não seria melhor se as mulheres dissessem para os próprios amigos que não gostaram de sua atitude em vez de insinuar e dar indiretas?
Sim, seria muito melhor se pudéssemos olhar na cara de cada amigo ou colega que perpetua atitudes machistas e ter uma boa conversa com ele. Acontece que isso nem sempre é possível. Muitas mulheres têm medo, e não sem razão. Outas sentem vergonha ou não sabem bem como agir. Os homens também quase nunca estão receptivos a ouvir (acreditem) e muitos reagem com agressividade. E o foco da campanha, pelo que entendo, é denunciar as atitudes exatamente sem personalizar, para mostrar como elas são comuns, na esperança de que quem as pratique possa refletir, reconhecê-las e evitá-las.


3) Muita mulher está usando a campanha para dar indiretas em amigos e ex-namorados e isso não ajuda em nada a luta por direitos.
Como toda campanha, esta também está sujeita a deturpações e não é perfeita, o que não a desvalida de forma nenhuma. Seu intuito é expor feridas, mostrar para outras mulheres que elas não estão sozinhas, revelar para a sociedade como muitas atitudes machistas são propagadas sem que pensemos nelas e como isso machuca, agride e ofende as mulheres. A ideia é revelar para mudar.


4) Por que esta campanha ofendeu mais os homens do que as outras?
Bom, tenho alguns palpites. Na ‪#‎primeiroassedio‬, que foi importantíssima, as mulheres acusaram o outro: o desconhecido na rua, o padrasto machista, o babaca com o qual muitos homens, principalmente mais jovens e que já cresceram sob a influência de muitas conquistas feministas, não se identificam. Esta campanha mostra que qualquer homem pode ser machista, justamente porque ele é estrutural e se revela até nas sutilezas.
Também acho que muitos não compreenderam bem o intuito e julgaram que o objetivo das mulheres é se vingar (se fosse, também seria compreensível), quando na verdade ela vale muito mais para nós, mulheres, do que para os homens. É muito importante para o feminismo que as mulheres se apoiem, identifiquem-se umas com as outras, encontrem-se e somem esforços.


5) Por fim...

É extremamente difícil nos reconhecer machistas (ou racistas ou homofóbicos ou seja lá o que for). É duro, principalmente se nos esforçamos para não ser. Mas é importante, também. É assim que avançaremos.
Sugiro que respeitem as campanhas e manifestações que ainda vão surgir, escutem, reflitam, pensem no motivo de elas existirem e, em última instância, incomodarem tanto.
Talvez um dia elas não sejam mais necessárias; quem sabe a sociedade mude a ponto de não precisarmos mais delas e desenvolva meios para que possamos denunciar atitudes machistas com segurança e efetividade. Por enquanto, as campanhas, gostemos ou não delas, vão continuar. Como dizemos por aí, não tem mais volta.

*Texto originalmente publicado na página "Quebrando o Tabu"

segunda-feira, 23 de novembro de 2015

O namorado não deixa

Ninguém tem dúvida de que levar um tapa na cara ou um soco no estômago é sinal de violência. É possível discordar se ela é merecida ou não, mas todo mundo sabe que esses são atos violentos.

No entanto, atitudes como dizer para a namorada vestir uma roupa mais comportada, usar menos maquiagem, cortar contato com determinado colega ou ainda deixar de se comportar de certa maneira são atos que muitos consideram sinal de “ciúme saudável”, como se isso existisse. Uma demonstração de amor, enfim.

Esse tipo de comportamento tem nome, e não é nada bonito: chama-se violência psicológica. Pode ser praticada por homens e mulheres, a diferença é que os primeiros costumam fugir de namoradas controladoras ou pelo menos dão um jeito de driblar a vigilância com mentiras e subterfúgios bem conhecidos de ambos os sexos. Já as mulheres... bem, muitas a aceitam como parte natural dos relacionamentos amorosos, porque aprenderam, com a ideia de amor romântico que lhes enfiaram na cabeça a vida toda, que controle é sinal de afeição, de cuidado, de querer bem.

Segundo pesquisa divulgada no ano passado pelo Instituto Avon e Data Popular e realizada com jovens de 14 a 24 anos, 56% das meninas já tiveram um parceiro que vasculhou seu celular atrás de supostas mensagens amorosas; 40% tiveram um companheiro que tentou controlá-la por meio de telefonemas; 37% praticaram relações sexuais sem preservativo por insistência dos parceiros; 33% já foram impedidas de usar determinada roupa pelos namorados.

É muito grave que meninas tão jovens já iniciem a vida amorosa e sexual assim, considerando normal demonstrações de controle e violência psicológica. Uma relação abusiva pode deixar marcas para sempre, além de estabelecer um padrão de relacionamento do qual é difícil escapar mais tarde.

Ninguém pode dizer ao outro como se vestir, aonde ir, de quem ser amigo, como se comportar. Ciúme não é saudável, é um sentimento que traz consequências horríveis para quem o sente e devastadoras para sua vítima, por isso deve ser combatido.

Isso não tem nada a ver com monogamia ou com a ausência dela. Cada um estabelece o tipo de relação que quiser, desde que encontre pessoas que concordem com seus termos. Tem a ver com respeito, com liberdade, com aceitação. Se você não gosta do jeito do seu parceiro ou parceira, afaste-se, mas não tente domá-lo(a). Simples.

Aprendemos que as pessoas podem e devem ser controladas. Isso, contudo, não é verdade. Como disse a filósofa Simone de Beauvoir, “querer-se livre é também querer livre os outros”. Ninguém é propriedade de ninguém, nem filhos, muito menos parceiros afetivos. Qualquer atitude que vise a controlar o outro é, sim, sinal de violência.


*Texto originalmente publicado na página do "Quebrando o Tabu"

domingo, 22 de novembro de 2015

Feminicídio


Em fevereiro de 2015, causou comoção na internet o caso do empresário que agrediu as cadelas da noiva, no Rio de Janeiro. O vídeo em que ele aparece maltratando os animais, filmado e divulgado pela dona dos bichos, foi rapidamente compartilhado por milhares de usuários das redes sociais, mobilizando, inclusive, a OAB.

Pouco mais de três meses depois, o mesmo empresário agrediu violentamente a agora ex-noiva, na porta de uma festa. Bastante machucada, a moça divulgou fotos e denunciou o rapaz à polícia.

Apesar dos dois fatos envolverem as mesmas vítimas, a violência contra a mulher não gerou um décimo da comoção da agressão aos animais.Embora triste, o fato não surpreende.

Segundo o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), a cada uma hora e meia uma mulher morre por causas violentas no Brasil. São 472 por mês; 5.664 por ano. É bastante gente.

São mulheres estupradas, espancadas, agredidas e vítimas de maus-tratos que resultam em óbito, na maioria das vezes cometidos por companheiros ou ex-companheiros. Esse tipo de crime, em que pessoas morrem apenas por serem mulheres, tem nome: feminicídio.

Nem todos conseguem ver a relação entre o assassinato de mulheres por questões de gênero e machismo, mas ela existe. Afinal, permitimos o controle da vida e da sexualidade da mulher, adotando costumes e normas que vão desde a valorização da virgindade até a criminalização do aborto. Dizemos como as mulheres devem se vestir, que aparência devem ter, como devem se comportar.

Obviamente nem todos se sentem no direito de matar por causa disso.Mas todas as vezes em que a sociedade aceita abusos nas ruas, que maridos digam com quem a mulher deve se relacionar e pais criem filhas e filhos sob regras diferentes estamos passando uma mensagem muito clara: os homens têm poder sobre as mulheres.E se isso é verdade, acabamos aceitando, também, que alguns extrapolem e acabem“exagerando” na dose e cometendo abusos e crimes.

Sem querer parecer simplista nem desprezar outras variáveis que contribuem para essa violência, como racismo, baixa escolaridade, entre outras, é primordial uma mudança cultural no sentido de não tolerarmos mais que as mulheres assumam lugar secundário na sociedade. Mas isso leva tempo, e muitas não podem esperar.

Nesse sentido, medidas como a sanção da lei que define como crime hediondo a morte violenta por razões de gênero, a Lei do Feminicídio, contribuem para que se pense duas vezes antes de tirar a vida de uma mulher. É lamentável, mas precisamos de uma lei para isso.


*Texto originalmente publicado no site "Sobre nossa visão distorcida"

terça-feira, 17 de novembro de 2015

Violência contra a mulher: negras são as principais vítimas


Até bem pouco tempo atrás, não havia nenhuma lei específica que protegesse as mulheres de agressões e crimes. Isso começou a mudar em 2006, quando entrou em vigor a Lei 13.340, conhecida como Lei Maria da Penha, que visa punir os casos de violência contra a mulher. Ainda mais recentemente, em março de 2015, foi promulgada a Lei 13.104 que passou a considerar crime hediondo os homicídios cometidos “por razões de condição de sexo feminino”, ou seja, os assassinatos perpetrados contra uma pessoa simplesmente por ela ter nascido mulher.

Mas será que essas leis de fato bastam para proteger as mulheres e evitar que ocorram novos casos de violência e homicídios?

De acordo com dados do recém-lançado Mapa da Violência 2015: Homicídio de mulheres no Brasil, não. De autoria do sociólogo Julio Jacobo Waiselfisz, o mapa conta com o apoio de várias instituições, entre elas ONU – Mulheres e OPAS/OMS (Organização Pan-Americana da Saúde – Organização Mundial da Saúde). Vamos a alguns números:

  • Só em 2013, foram assassinadas 4.762 mulheres no território nacional, o que coloca o Brasil em quinto lugar entre os países com mais casos de homicídio feminino do mundo. Ficamos atrás apenas de El Salvador, Colômbia, Guatemala e Rússia; nossa taxa de homicídio feminino é 48 vezes maior que a do Reino Unido e 24 vezes maior que a da Irlanda ou da Dinamarca;

  • A taxa de homicídio entre as mulheres brancas caiu de 3,6 por 100 mil em 2003 para 3,2 em 2013, uma redução de 11,9%. Já entre as mulheres negras, houve um aumento de 4,5 para 5,4 por 100 mil no mesmo período, um crescimento de 19,5%;
  • Em 2013, foram assassinadas 66,7% mais negras do que brancas;
  • No que se refere aos feminicídios, há poucos dados disponíveis. No entanto, sabe-se que dos 4.762 homicídios realizados em 2013 cujas vitimas eram mulheres, 50,3% foram cometidos por familiares, o que dá uma média de 7 homicídios por dia;
  • Parceiros ou ex-parceiros foram autores de 33,2% desses assassinatos, ou seja, 4 vítimas por dia;
  • Dos adultos que procuraram o SUS em 2014 por intercorrências causadas por violência (doméstica, sexual e/ou outras), 71,3 por 10 mil eram mulheres, enquanto 28,6 por 10 mil eram homens. Entre os adolescentes atendidos, essa proporção foi ainda maior: 65,1 por 10 mil mulheres ante 34,9 por 10 mil homens;
  • Nesse ano, 405 mulheres sofreram violência por dia e precisaram ser atendidas pelo SUS;
  • No conjunto de todas as idades, 67,2% das agressões contra mulheres foram cometidas por parentes imediatos ou parceiros e ex-parceiros.



Esses e outros dados do mapa nos revelam aquilo que estudiosos das questões de gênero já sabem: a violência contra a mulher não é homogênea, distribui-se de forma não igualitária entre regiões, idades e raças.

Alguns estados, como Roraima e Espírito Santo, apresentam taxas muito mais elevadas do que outros. Os municípios com índices mais altos de assassinato de mulheres são os de pequeno porte, mais espalhados pelo interior do país.

É verdade que os homens são a maioria das vitimas de homicídio no Brasil. No entanto, a violência sofrida pelas mulheres assume uma peculiaridade macabra: é praticada na imensa maioria das vezes dentro de casa, em um ambiente que lhes deveria oferecer segurança, por parentes ou parceiros e ex-parceiros.

Com esses dados, podemos afirmar que as principais vítimas de feminicídios no Brasil têm rosto, e ele é negro e jovem. Seus algozes também são conhecidos, tanto pelas próprias mulheres quanto pela sociedade.

Se sabemos quem são as vítimas e os agressores, por que não conseguimos impedir que novos crimes ocorram? A resposta é simples, porém incômoda: porque achamos normal e, portanto, aceitável que homens disponham da vida e do corpo das mulheres como desejam. Não consideramos, apesar das leis, crime grave um marido agredir a esposa ou um pai bater na própria filha. Afinal, não costumamos dizer, por exemplo, “em briga de marido e mulher, não se mete a colher”?

A violência contra a mulher é uma violação grave aos direitos humanos. Gera custos com saúde e despesas legais perfeitamente evitáveis, desestrutura famílias, traz consequências terríveis para quem a vivencia direta e indiretamente.

Há vários aspectos culturais que explicam a violência de gênero, que está enraizada na desigualdade estrutural que há entre homens e mulheres. Para evitá-la, é preciso que haja políticas eficientes para as mulheres, em especial as negras e pobres, e a aplicação das leis vigentes.

Supõe-se que menos de 7% dos homens que cometem violência grave contra a mulher sejam condenados. Cientes da impunidade e da omissão da sociedade, eles continuam a circular por aí, como se não fossem os criminosos que são.

*Texto originalmente publicado no site drauziovarella.com.br

quarta-feira, 11 de novembro de 2015

Homem com H

Atenção: contém altas doses de ironia
        
                                 **

Como é difícil lidar com as mulheres no trabalho. Choram por qualquer coisa, não aguentam nenhuma brincadeira, levam toda crítica para o lado pessoal. Fora os dias em que chegam atrasadas porque precisam levar o filho ao dentista ou faltam porque a empregada não foi trabalhar e elas não têm com quem deixar as crianças. Nós, homens, não temos esses privilégios.

Fora as fofocas na hora do almoço. Reparem como o alvo é sempre outra mulher. Elas invariavelmente se juntam para falar mal do cabelo, da roupa, do corpo e do comportamento sexual de alguma colega. Sempre. E são tão falsas que quando a “vítima” se aproxima delas, elas fingem que a adoram. Mas estavam falando mal da coitada cinco minutos atrás! Como conseguem?

Outra situação que evito: entrar em um carro cujo motorista seja mulher. Pelo amor de Deus! Onde será que elas aprendem a dirigir? Estacionar, então... acho que o cérebro delas tem algum problema na área da orientação espacial, não é possível.

Nos relacionamentos afetivos, elas também enchem o saco. Cara, como são possessivas, nunca vi. Têm ciúme de qualquer uma que se aproxima do namorado, são inseguras, querem demonstração de amor o tempo todo. Juro que se elas não fossem gostosas... Não aguento mais mulher maluca me infernizando. Nada nunca está bom, não consigo entender o que se passa na cabeça delas. Bando de histéricas, não quero namorar mais por um bom tempo.

Por isso gosto das vagabundas. Ah, bem melhor. É só sair, transar e voltar para casa. Sem pegação no pé, sem encheção, bem mais simples. Mas tem que saber lidar com elas, de vez em quando precisa mandar uma mensagem, dizer umas palavras carinhosas para elas se sentirem especiais, afinal, são mulheres. O problema é quando elas se apaixonam e começam a querer uma relação mais firme.

Agora, eu me divirto mesmo é saindo com os caras. A gente não fica falando papo de mulher nem fofocando. Sem mimimi vitimista de como sofremos com o machismo, de como é chato andar na rua e ouvir cantada, de que a sociedade é injusta. Não, a gente enche a cara, zoa e se diverte.

Com homem é diferente, é mais fácil. Cada um cuida de si, ninguém compete, a gente respeita a mulher do outro, é amigo de verdade, sabe? Em homem dá para confiar!

A única mulher por quem realmente coloco minha mão no fogo é minha mãe. Ah, essa, sim. Que mulher! Criou os filhos com esforço, tem sempre um colo esperando pela gente, é compreensiva, enche os filhos de amor sem pedir nada em troca, nunca reclamou da vida. Eu acho que a verdadeira mulher tem que ser maternal e feminina, como minha mãe.

Quando eu me casar, quero que seja com uma mulher assim, que se dedique à família, que não pense só em si como essas feministas de hoje, que só reclamam. Que seja amorosa, saiba cuidar do nosso bem-estar. Mulher tem que ser maternal, entende?

Acho que esse tipo de mulher não existe mais. Agora elas colocam a culpa de tudo nos homens, só querem ser como a gente, perderam a feminilidade, a graça, sabe?

Não que eu seja machista, adoro mulheres, mas elas têm que entender que somos diferentes, não está com nada tentarem se igualar a nós. Pergunta se elas iam gostar de prestar serviço militar ou de encher uma laje para você ver.

*Texto originalmente publicado na página do "Quebrando o Tabu"

sábado, 7 de novembro de 2015

Meninas e meninos

Esta semana, foi lançada a iniciativa #AgoraÉQueSãoElas, cuja ideia principal é abrir espaço e dar voz às mulheres que, em geral, não têm esse privilégio.


Pensando nisso, abro espaço para minha filha de 11 anos, que desde pequena já sente o peso de ser mulher em uma sociedade machista. Com vocês, o olhar da Manoela.

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Outro dia, sai com algumas amigas e encontramos um dos meninos com quem nunca nos demos bem, pois ele sempre nos tratou mal. Ele quis passear com a gente. Estávamos andando e começamos a conversar e eu fui percebendo que, separado do grupo de meninos com que ele sempre anda, ele era legal.

Esse grupo de que falei sempre desrespeita as meninas, faz piadas com a aparência delas, fica cochichando sobre qual menina tem o corpo mais bonito e desencoraja as meninas, dizendo que elas não conseguem fazer as mesmas coisas que os meninos, como praticar esportes, que meninas só sabem fazer compras e as que não fazem, são quase consideradas meninos.

Por que os meninos fazem isso? Por que eles têm que se mostrar superiores às meninas? Em que eles se espelham para fazer essas coisas desde já?

Para mim, parece que os meninos fazem isso porque se espelham na sociedade que ensina essa ideia para eles, de que os homens são superiores às mulheres. Essa atitude é ruim porque separa os homens das mulheres desde a infância, e acaba fazendo com que algumas meninas acreditem no que eles falam.

Minha opinião é que para isso melhorar, os adultos têm que parar de mostrar essa ideia para as crianças, e dizer a eles que tanto homens quanto mulheres têm as mesmas capacidades.


Manoela Varella Peixoto

segunda-feira, 2 de novembro de 2015

Machismo à esquerda


Vamos falar sobre machismo na esquerda?


É sabido que as pessoas de esquerda, em geral, se voltam para as questões sociais e as injustiças que assolam as minorias. Faz parte de sua preocupação e de seu discurso defender os direitos humanos daqueles que nem sempre podem deles usufruir.


Por isso, tendemos a achar que não há machismo, racismo, homofobia ou qualquer tipo de preconceito entre os esquerdistas. No entanto, está cheio de homem de esquerda machista. Cheio. Esses caras ficam chocados ao descobrir que o assédio sexual começa, na maioria dos casos, antes dos dez anos de idade, mas são capazes de usar expressões sexistas para criticar a mulher do deputado federal Eduardo Cunha, de detonar a aparência da mulher que agrediu o secretário municipal de Direitos Humanos e Cidadania de SP Eduardo Suplicy, só para citar acontecimentos que foram notícia nas redes sociais esta semana.


Eles bravejam a favor da igualdade de gênero, mas discriminam a colega da faculdade que não tem pudor em revelar que faz sexo quando e com quem deseja. Quer dizer, eles até fingem que a acham bacana, principalmente se puderem transar com ela, mas no fundo, sem assumir e por trás, consideram-na “vadia” e evitam um relacionamento mais sério com ela, sob o pretexto de que “não querem se envolver no momento”.


Eles são os colegas que menosprezam as gordas, os maridos que não dividem as tarefas de forma igualitária em casa, os professores universitários que seduzem as alunas jovens e bonitinhas para se autoafirmar, os rapazes que ficam bravos quando rejeitados porque, afinal, como assim?, eles são tão gente boa, tão libertários, tão preocupados com o mundo!


Não é simples reconhecer esses machistas porque eles se disfarçam sob um discurso igualitário e atitudes progressistas. Mas basta um olhar mais atento para ver que eles estão em todos os lugares: nas faculdades, nos bares descolados, nos grupos que representam movimentos sociais organizados, até entre seus amigos íntimos. Suas atitudes machistas são tão opressoras quanto as oriundas das pessoas mais reacionárias, pois machismo é opressor por si só, não importa de onde nem de quem venha.


Vamos admitir: todos fomos criados, em maior ou menor grau, sob a influência de crenças machistas, racistas e homofóbicas, para citar alguns dos preconceitos que nos foram empurrados goela abaixo desde a infância. Para deixar de acreditar nelas, é necessário primeiro reconhecer o quanto elas nos atingem, depois é preciso muito questionamento, discussão, força de vontade, até. Esse processo leva tempo e, muitas vezes, é doloroso.


Se é difícil para qualquer um reconhecer e desconstruir suas crenças, para o homem de esquerda que acredita que conseguiu escapar incólume pela sociedade patriarcal é ainda mais penoso. Contudo, não é impossível e tem um monte de gente que consegue.


Temos de deixar claro que usar expressões e práticas machistas para se referir a uma mulher é ofensivo, mesmo que ela seja de direita, corrupta, mau-caráter, que seja a mulher do Cunha. Se não ofende você, deveria.

*Texto originalmente publicado na página do "Quebrando o Tabu"

terça-feira, 27 de outubro de 2015

Tamos juntas!

Passei a adolescência e parte da vida adulta tendo mais amigos homens do que mulheres. Achava-os muito mais legais, mais divertidos, mais livres. As mulheres, por sua vez, eram fofoqueiras, competitivas, fúteis, cheias de regras sobre o que fazer, sobre como se comportar.

Eu me sentia muito bem cercada pelos meninos, só era preciso relevar os comentários sexistas que surgiam de vez em quando. Não queria falar sobre assuntos “de menina”: homens, namoros, roupas, filhos futuros que eu nem sabia se teria, dietas, sobre como fulana era gorda ou como a menina da classe ao lado não se dava ao respeito e transava com todo mundo. Com os meninos, conversava sobre política, sobre viagens, sobre baladas, sobre o mundo. Eles eram livres, as meninas não, e eu queria ser livre. Simples assim.

Na verdade, eu não percebia que passava o tempo todo querendo agradar e ser aceita pelos meninos. E não enxergava o quanto era ofensivo quando me diziam que eu era diferente, que era liberal, que nem parecia menina. Eu simplesmente não falava sobre questões que eram importantes para mim, mas que não tinha condições de compartilhar com os meninos porque eles não passavam pelo que eu passava. Em resumo, para ser aceita como a menina gente boa da galera, eu anulava minhas próprias vivências.

Com o tempo, fui percebendo como é perversa a ideia de que as mulheres são superficiais, competitivas, de que a amizade entre elas nunca pode ser autêntica. Na verdade, aprendemos a competir, a nos ver como inimigas, a nos julgar porque acreditamos na rede de comportamentos, deveres e condutas que a sociedade tece e nos impõe para que sejamos aceitas e cumpramos o papel secundário que nos foi designado. As que têm a ousadia de se negar a isso são julgadas por todos, inclusive pelas próprias mulheres. As que elevam a voz contra a sociedade, são taxadas de loucas, neuróticas, histéricas, qualquer ofensa que vise silenciá-las e desacreditá-las.

Passei as últimas semanas acompanhando minha filha no hospital. Vivi momentos de terror. E fui amparada por uma rede de mulheres incríveis: parentes, amigas íntimas e outras nem tanto, enfermeiras, médicas, mães, pessoas que nem sequer conhecia. Foi lindo ver como as mulheres podem ser fortes juntas, como somos maravilhosas quando nos despojamos do preconceito e do ódio que nos ensinaram a sentir umas pelas outras, quando compartilhamos experiências, dores e sorrisos.

Continuo amiga dos homens. Tenho amigos extraordinários. Mas não tento mais ser como eles nem agradá-los. Sou mulher, vivo questões que não lhes dizem respeito e minha história não se aproxima nem de longe da deles.

Pelos homens do meu círculo de amizade sinto carinho, respeito, admiração, amor. Mas são as mulheres que dividem comigo as vivências de uma sociedade patriarcal que tolhe nossa liberdade, que nos nega direitos, que tenta nos impor modelos de conduta que não nos cabem, que sabem, em suma, onde aperta nosso sapato. É com elas que me identifico, é a elas que ofereço meu olhar mais compassivo, aquele que diz, mesmo em silêncio, “tamos juntas”.

*Texto originalmente publicado na página "Quebrando o Tabu"

quarta-feira, 21 de outubro de 2015

Eduardo Cunha e sua luta contra os direitos

O deputado Eduardo Cunha (PMDB/RJ) é um homem incansável. Sua luta contra os direitos daqueles que ele considera indignos beira a obsessão. A mais nova iniciativa do peemedebista se chama PL 5069/2013, e está prevista para ser votada hoje, 22/9, na Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania, já com as emendas do deputado Evandro Gussi (PV/SP).

O projeto, em suma, dificulta o atendimento e altera os direitos já garantidos às vitimas de estupro. Como? Assim:

1) Atualmente, o aborto é permitido por lei em casos de estupro, entre outras situações. O PL de Cunha prevê a criminalização da facilitação ou instigação do aborto, com penas maiores para agentes de saúde. O projeto não faz ressalvas explícitas às ocorrências de estupro, o que abre brecha para que profissionais, com medo de punições, não orientem ou atendam as vitimas nos casos em que o aborto é permitido por lei. Essa “omissão” dos casos de estupro certamente não foi um descuido dos deputados, mas antes algo muito bem pensado.

2) Hoje se entende por violência sexual “qualquer forma de atividade sexual não consentida”. Pelo projeto de lei, só serão consideradas vítimas de violência sexual aqueles que puderem comprovar a agressão por meio do exame de corpo de delito, caso contrário não receberão atendimento especializado. Os deputados ainda retomam, no projeto, a definição de violência sexual constante do Código Penal de 1940, em que, para ser considerada vítima desse tipo de violência, é preciso haver ”dano físico ou psicológico”. Ora, sabemos que se nem todo ato de violência sexual deixa sequelas físicas aparentes, o que dizer então dos danos psicológicos, que são ainda mais suscetíveis à contestação?

3) No momento, toda a rede SUS é obrigada a fornecer atendimento imediato às vítimas de violência sexual. Esse atendimento compreende, entre outras medidas, tratamento das lesões, amparo médico, psicológico e social, profilaxia da gravidez (pílula do dia seguinte) e informação de serviços sanitários disponíveis. Pelo PL, além de ser necessária a comprovação da violência sexual antes do atendimento, os serviços não serão mais obrigados a fornecer a pílula do dia seguinte nem informar a vitima sobre seus direitos, que incluem acesso aos serviços de aborto legal, caso esse seja seu desejo. (Em tempo: a ciência já demonstrou que a pílula do dia seguinte não é abortiva, ela impede a ovulação ou, quando esta já ocorreu, a formação do endométrio gravídico, camada que recobre o útero para receber o óvulo. Duvido muito que os nobres deputados desconheçam esse fato.)

Muito bem. Na prática, estamos dizendo à vitima de estupro que não acreditamos nela, que ela deve se virar para comprovar que sofreu violência, caso contrario não receberá o acolhimento devido. Caso ela passe pelo constrangimento de ter de provar que é vítima e consiga atendimento, ela não terá garantido o acesso à pílula do dia seguinte nem ao serviço de aborto legal.

Não sei você, mas eu pensaria duas vezes antes de procurar ajuda, caso fosse vitima de estupro. Já que eu não poderia impedir a violência sexual sofrida, pelo menos evitaria me submeter à violência que essa sociedade hipócrita me reservaria ao me negar um atendimento digno e especializado.



Não sei se o projeto vai ser aprovado, mas tenho certeza de que os deputados não se darão por vencidos. Portanto, nobres deputados, já que lhes xingar de nada adiantaria, peço ao menos que respeitem as mulheres, que constituem mais de 50% da população brasileira, e não mexam em direitos já constituídos. Procurem fazer algo mais útil, como, por exemplo, ir atrás de um terreno para capinar.

*Texto originalmente publicado na página "Quebrando o Tabu"

sexta-feira, 25 de setembro de 2015

Mamilos



Em muitos estados americanos, as mulheres não podem mostrar os mamilos em local púbico, nem mesmo para amamentar o filho, sob pena de multa e, em alguns casos, cadeia. Os homens, por sua vez, podem exibir o tronco desnudo sem nenhum problema em campanhas publicitárias, por exemplo, e andar sem camisa em público desde 1936.


É claro que mulheres e homens têm diferenças anatômicas; no entanto, nada justifica o fato de os mamilos femininos serem erotizados, enquanto os masculinos não. Quem decidiu isso? Por que as mulheres têm de amamentar os filhos escondidas e usar sutiãs apertados e desconfortáveis que disfarcem os seios?


Foi esse tipo de questionamento que motivou o movimento americano “Free the Nipple” [mamilo livre, em tradução livre]. A deia do projeto não é pregar que mulheres sejam forçadas a tirar a roupa e exibir os seios, mas que elas tenham o direito de dispor do próprio corpo como quiserem. E mais: que seu corpo não seja visto como objeto sexual quando não for essa sua intenção.


Já temos a versão brasileira do movimento, o projeto "Mamilo Livre", desenvolvido pela fotógrafa Júlia Rodrigues e pela psicóloga Letícia Bahia. A ideia principal do projeto é fazer com que a sociedade reflita o quão ridículo (a palavra foi escolhida por mim) é termos normas de comportamento diferentes para homens e mulheres. Os mamilos, segundo especialistas em sexualidade, não são zonas mais erógenas do que outras partes do corpo que homens e mulheres exibem sem sentir vergonha.


O que torna os mamilos femininos tão indignos de ser mostrados? O tamanho? Não, sabemos que há homens com mamas maiores que as de muitas mulheres. Além disso, isso não justificaria o fato de meninas pequenas serem obrigadas a usar a parte de cima do biquíni em clubes e academias. Ou de pré-adolescentes cujas mamas estão apenas começando a se desenvolver terem de usar sutiãs para que seus mamilos não apareçam sob a camiseta da escola (toda mulher se lembra bem dessa fase e de como os meninos podem ser cruéis).


Por que perder tempo com uma questão tão irrelevante?, perguntarão os ingênuos. Há tanta coisa mais importante na luta por direitos iguais para homens e mulheres. É verdade, mas para avançarmos nessa luta também é essencial pensar nos motivos que levam à sexualização do corpo feminino; no fato de que apenas insinuá-lo sob a roupa já é motivo para permitir que homens desconhecidos mexam com as mulheres nas ruas; de que há mulheres que amamentam em banheiros públicos, locais que obviamente têm condições precárias de higiene, apenas para não mostrar os seios; de que as mulheres são levadas desde pequenas a cobrir os mamilos para evitar constrangimento; a usar sutiãs com bojo, arame, espuma e o diabo a quatro para que os seios adquiram formas que não são nada naturais; que muitas vivem infelizes porque seu seio não tem o formato nem o tamanho que a moda considera ideais.


Pensem nisso. E verão que o movimento “Mamilo Livre” não é apenas pelo direito de mostrar ou não os mamilos. É, antes e acima de tudo, uma luta por igualdade de gênero.

*Texto originalmente publicado na página do "Quebrando o Tabu"

domingo, 13 de setembro de 2015

Educação contra o machismo


Todo mundo conhece uma mulher que já foi vítima de abuso em locais públicos, independentemente da sua idade, nível social ou aparência. Quando paramos um minuto para ouvir seu relato, quase sempre escutamos frases do tipo: “E olha que meu vestido ia até o joelho”, “Naquela ocasião, eu nem usava maquiagem!”, “Eu estava a caminho do trabalho, era de dia” ou ainda “Juro que não olhei para o rapaz”. Essas justificativas são usadas como tentativa de se explicar, de deixar bem claro que a vítima não teve culpa, de que foi apenas... bem, vítima.


Para tentar coibir os abusos, algumas cidades brasileiras lançaram campanhas contra o assédio no transporte público que incluem peças publicitárias e até a adoção do chamado “vagão rosa”, destinado apenas às mulheres, embora, pasmem!, elas sejam a maioria dos usuários do metrô. Esse tipo de segregação colabora para a cultura de culpabilização da vítima e encoraja abusos nos vagões comuns, sob o pretexto de que as mulheres assumem o risco quando decidem ocupar o espaço que não lhes é destinado.


Além de inúteis, as medidas dão a falsa impressão de que estamos agindo para acabar com o assédio e o abuso em locais públicos quando, de fato, estamos enxugando gelo.


A melhor maneira de diminuir os abusos sexuais é por meio da educação. Por isso é tão importante discutir a questão de gênero nas escolas, tema que encontra resistência por parte dos conservadores, que fazem de tudo para impedir a inclusão do tema nos Planos de Educação. A discussão sobre igualdade e identidade de gênero deve fazer parte do currículo e do planejamento pedagógico de todas as escolas do país.


Meninos e meninas precisam ter as mesmas oportunidades e participar de projetos interdisciplinares que abordem questões como homofobia, racismo, sexismo e identidade de gênero, sempre enfatizando o respeito ao indivíduo. É mais do que necessário que as crianças e jovens discutam essas questões: é imprescindível e inadiável.


Por que será que os conservadores têm tanto medo de que se trabalhe a igualdade de gênero nas escolas? Por acaso receiam que os meninos passem a realizar tarefas domésticas como lavar louça e arrumar a própria cama? Ou que os garotos aprendam desde cedo a respeitar as opiniões e as vontades de outros seres humanos?


Entre outros temores, os conservadores têm medo, na verdade, de que as mulheres adquiram ferramentas para exigir direitos e, como consequência, ofereçam perigo à ordem patriarcal que impera na sociedade. Pelo mesmo motivo, não gostaram do “kit anti-homofobia”, que visava discutir homofobia nas escolas, e evitam que temas caros às minorias façam parte do currículo escolar.


Se os conservadores têm culpa, nós, como sociedade, também temos. Porque aceitamos que eles mandem em nossos filhos, que interfiram em sua educação e continuem perpetuando o machismo e o preconceito. A educação é a melhor ferramenta para construir uma sociedade mais justa e igualitária, em que seus cidadãos se respeitem e saibam conviver com as diferenças. Resta saber se temos, de fato, interesse em criar uma sociedade assim.

*Texto originalmente publicado na página do "Quebrando o Tabu"

sexta-feira, 4 de setembro de 2015

O tabu do aborto


Hoje foi divulgada a notícia de que o Papa Francisco vai dar permissão para todos os padres perdoarem as mulheres que fizerem aborto e buscarem clemência. Atualmente, a Igreja Católica excomunga automaticamente todas as mulheres que passam pelo procedimento.

Atitude louvável, a do Papa. Ele tenta, aqui, fazer aquilo que o Brasil se recusa: olhar para os milhões de mulheres que, todos os anos, passam por um aborto provocado não como criminosas, mas como seres humanos que merecem cuidado.

Na verdade, a Igreja não está em condições de agir de modo diferente, se formos considerar os séculos de opressão exercida contra as mulheres. Mesmo assim, melhor essa atitude do Papa do que a anterior.

Nunca conheci ninguém que fosse favorável ao aborto, que achasse que a decisão de interromper uma gravidez fosse fácil ou bacana. É uma solução extrema. Mesmo assim, as mulheres abortam. E o fazem por motivos variados e independentemente do que achamos. Segundo o IAG (Instituto Alan Guttmacher), entidade americana que estuda a questão do aborto no mundo, cerca de 1 milhão de mulheres abortam todos os anos no Brasil.

É muita gente. A criminalização do aborto não faz com que as mulheres não abortem; faz apenas com que corram risco de vida (uma mulher morre a cada dois dias no país devido a complicações de aborto inseguro, segundo a OMS).

Sugiro, aqui, que façamos um exercício e nos coloquemos por um minuto no lugar dessas mulheres.

Por descuido ou acaso, você engravidou, mas não deseja ou não pode prosseguir com a gravidez. Você não tem recursos financeiros, não tem parceiro fixo, acha que ainda não tem idade suficiente para arcar com um filho, não importa o motivo que a levou a não desejar a gravidez, você não quer ou não pode seguir adiante.

O que fazer? A quem procurar? Como o aborto é crime, você será considerada criminosa se buscar um hospital ou serviço de saúde para pedir ajuda.

Você então vai atrás de informações por conta própria, e nesse processo tudo pode acontecer. Sem orientação de um especialista, que você não sabe onde encontrar e talvez nem tenha dinheiro para pagar, você reza para não morrer.

Sei que muitos vão dizer: “Então por que fez sexo, se não pode arcar com as consequências?”. Bom, então deveríamos tratar desse modo quem pega sífilis, gonorreia, HPV e outras doenças sexualmente transmissíveis. Afinal, contrair uma DST é um risco que todos que fazem sexo correm, mas apenas uma minoria, creio, deseja que as pessoas não tenham direito a um tratamento médico decente.

No entanto, condenamos milhares de mulheres aos riscos que um aborto inseguro implica. Não lhe oferecemos nenhuma alternativa, nenhum tratamento, nenhum amparo. Será que agiríamos assim se fossem os homens que engravidassem?

A verdade é que, assim como contrair uma DST, engravidar é um risco que quem faz sexo corre. E da mesma forma que uma pessoa não deve ser punida e esquecida porque contraiu uma doença, seja qual for, uma mulher que não deseja a gravidez também não deve ser abandonada à própria sorte.

A ideia de que as mulheres devem ser castigadas porque fazem sexo por prazer é tão antiga que é difícil acreditar que ainda nos deixemos levar por ela. Pior, que estruturemos nossa sociedade e nossos valores com base nela.

Por isso, gostaria de dizer ao Papa que nós, mulheres, não necessitamos de perdão. Precisamos e merecemos um Estado que ofereça serviço médico e garanta acesso à saúde e aos direitos reprodutivos. Em suma, merecemos respeito, cuidado e dignidade.

*Texto originalmente publicado na página do "Quebrando o Tabu"

quinta-feira, 27 de agosto de 2015

Publicações femininas

Esta semana, surgiu nas redes sociais uma série de montagens de capas de revistas satirizando as publicações femininas de maior circulação nacional. O intuito era questionar o conteúdo dessas revistas com humor, propondo uma brincadeira: como seriam as manchetes de capa se essas revistas fossem destinadas ao público masculino?


“Aprenda a fazer o prato favorito da sua mulher”, “Seu filho é hiperativo: Dicas de pais que passaram por esse problema”, “Como emagrecer enquanto limpa a casa” e “Será que devo transar no primeiro encontro?” foram algumas das manchetes inventadas nas supostas revistas masculinas.


A proposta é interessante, embora alguns homens não tenham gostado: usar o humor para fazer com que a sociedade note o conteúdo sexista e limitado que permeia a imensa maioria das publicações destinadas ao público feminino. A impressão que temos é que as revistas não apenas desconhecem que há mais de um tipo de mulher na sociedade, mas também se empenham com afinco em reforçar os estereótipos e o preconceito por meio de informação pouco relevante.

Uma revista destinada às mulheres não deveria se importar com questões de gênero, violência doméstica, tabus sexuais, racismo, machismo e outros problemas que nos afetam diretamente? Então por que as publicações femininas cismam em escrever matérias que só falam de como cuidar dos filhos, agradar os homens, ficar mais bonita e dar conta de uma jornada tripla sem descer do salto?


A primeira resposta que encontro é bastante óbvia: porque esse conteúdo vende. E isso significa que atrai anunciantes. Que produto vai querer anunciar em uma revista que fala sobre aborto? Ou que trata de estupro? Bem melhor associar sua marca a matérias que ensinam a fazer maquiagem ou a se vestir bem.


O problema é fingir que é isso que as mulheres querem ler. Não é. Pelo menos, não todas. Mas se só fizerem revistas assim, é isso que as mulheres vão ler. E de tanto ler, muitas acabarão acreditando na mentira vendida nas revistas. Quantas meninas e mulheres jovens não acham que é isso que todas queremos e devemos consumir, que a sociedade nos reservou apenas o lugar da cozinha e da cama e é lá que precisamos ficar, de preferência bem bonitinhas e felizes?


Talvez muita gente não saiba, mas tem um monte de mulher ocupando outros espaços, com discursos diversos, que tem muito a mostrar e não se interessa apenas em agradar os homens. E a publicação que der voz a essas mulheres certamente contará com um público considerável, embora mais restrito. Basta ter coragem de arriscar.


Uma coisa é certa: essas publicações sabem o estrago que fazem na vida das mulheres ao nos venderem a imagem da mulher perfeita, que dá conta dos filhos, marido, trabalho, casa e ainda assim goza mil vezes e encontra tempo para ficar linda e magra. Conhecem o poder da propaganda, sabem que colaboram com o crescimento dos casos de distúrbios alimentares, com o racismo, com a cultura do estupro, com a baixa autoestima daquelas que não se enquadram no modelo vendido. Elas só não se importam.


*Texto originalmente publicado na página do "Quebrando o Tabu"

segunda-feira, 24 de agosto de 2015

Coletor menstrual: por que não falamos dele?

À primeira vista, ele parece um cálice feito de silicone. Embora possa causar estranheza no início, a maioria das mulheres que o experimenta diz que não vive mais sem ele. Mesmo assim, pouca gente o conhece ou já ouviu falar dele.


O coletor menstrual, também chamado de “copinho”, é um dispositivo usado para coletar o sangue menstrual. Ajustável ao corpo, oferece baixo risco de infecções (não há nenhum caso de Síndrome do Choque Tóxico registrado com seu uso, por exemplo), é hipoalergênico, econômico – custa de R$ 85,00 a R$ 150, 00 – e reutilizável, podendo durar de cinco a dez anos.

Ao contrário do absorvente interno, que precisa ser introduzido no fundo do canal vaginal, o coletor deve ser colocado na entrada da vagina, o que pode causar certo desconforto durante o período de adaptação, que costuma variar de dois a cinco ciclos, em média.

Segundo a doutora Renata Lopes Ribeiro, médica-assistente da Clínica Obstétrica do Hospital das Clínicas da FMUSP e membro da equipe de Medicina Fetal do Fleury e da Maternidade São Luiz (SP), é preciso esvaziá-lo a cada 6 a 12 horas, dependendo da intensidade do fluxo menstrual. Para higienizá-lo, basta lavá-lo com água fria e sabão e fervê-lo após o período menstrual. Como o sangue não entra em contato com o ar, o coletor também evita o mau odor, que pode ocorrer com o uso de absorventes externos.

Em geral, as marcas disponíveis no mercado oferecem dois tamanhos de coletores, um para mulheres que não tiveram filhos e outro para as que já tiveram. O dispositivo não está à venda em farmácias, somente pela internet. Sua única restrição de uso vale para quem ainda não teve relações sexuais, pois o hímen pode se romper na hora de introduzir ou retirar o copinho, e para as puérperas (mulheres que tiveram filhos há menos de 40 dias).

“Não existe um tipo de absorvente que seja universalmente melhor para todas as mulheres. É preciso considerar as características do absorvente, assim como o perfil do ciclo menstrual, as preferências e estilo de vida de cada mulher que irá utilizá-lo. É bom saber que existem opções que contemplem as necessidades de cada uma de nós”, salienta a dra. Renata.

Com todas essas vantagens, é de se estranhar que pouco se fale a respeito dos coletores. Por que um dispositivo relativamente barato, sustentável (o absorvente externo demora cerca de 100 anos para se degradar na natureza e o interno, mais ou menos um ano), que oferece baixo risco de infecções e mais liberdade à mulher é tão pouco divulgado?

Uma coisa é certa: para usar o coletor, a mulher precisa entrar em contato com o próprio corpo, tocá-lo, conhecê-lo, aceitá-lo. Em uma sociedade em que falar sobre o funcionamento e as necessidades do corpo feminino ainda é tabu, em que mesmo hoje em dia algumas meninas escondem até da mãe, mulher como elas, que menstruaram, é fácil entender por que pouco se fala sobre o dispositivo. Espera-se de nós, mulheres, que lidemos com a menstruação em segredo.

Devemos apoiar toda iniciativa que vise a dar mais liberdade e opção de escolha para a mulher. Cada uma tem um corpo, uma história, e quanto mais alternativas tivermos, melhor. Portanto, é hora de olharmos com mais carinho para elas. E para nós.


*Texto originalmente publicado no drauziovarella.com.br

sexta-feira, 21 de agosto de 2015

Quando uma vida vale menos


O movimento contínuo de carros e pessoas anuncia a proximidade do fim de semana. A noite quente, atípica para esta época do ano, convida para uma cerveja nas centenas de mesas dos bares de dois bairros paulistanos famosos pela boemia, Jardins e Vila Madalena. O som da risada e da voz de jovens, a maioria de classe média e classe média alta, se faz ouvir há dezenas de metros.


No meio da confusão festiva, ninguém estranha quando um Peugeot prateado para em frente de um desses bares por volta das oito da noite. Dois homens encapuzados descem armados e atiram nas pessoas que até então não haviam notado sua presença. Alguns gritam e tentam se esconder embaixo das mesas, outros não têm tempo sequer de reagir e caem mortos. O barulho dos tiros e o sangue que escorre nas calçadas transformam aquele ambiente antes alegre em um cenário de guerra.


A cena se repete durante cerca de duas horas em oito lugares diferentes, totalizando dezoito mortos e vários feridos. Uma das vítimas, Pedro, de 33 anos, era casado e tinha três filhas pequenas, agora órfãs. O corpo de Paulo, 26 anos e morto com seis tiros, aguarda durante doze horas na calçada pelos agentes do IML, exposto e abandonado como um cachorro, nas palavras do irmão.


As testemunhas nunca se esquecerão do que viveram. No dia seguinte, os meios de comunicação noticiam a tragédia initerruptamente. O governo do estado promete prender os assassinos, provavelmente policiais ligados a grupos de extermínio. A população, chocada, sai às ruas clamando por justiça, em apoio a dor dos familiares das vítimas. O país demora um tempo para retomar a rotina.


A cena acima é parcialmente fictícia. Com exceção do local, da classe social das vítimas e do desfecho, a história é verídica. A chacina ocorreu na quinta-feira passada (13/8), nos municípios de Osasco e Barueri, ambos na região metropolitana de São Paulo. Os autores dos crimes, ao que tudo indica, são policiais que pretendiam vingar a morte de dois colegas vítimas de latrocínio. Pedro e Paulo são, respectivamente, Jonas dos Santos Soares e Eduardo Bernardino César.


É difícil saber o que teria acontecido exatamente se a chacina tivesse ocorrido nos bairros de classe A e B. Arrisco-me a dizer, no entanto, que seria algo bem diferente do silêncio incômodo dos últimos dias. Mas jovens brancos de classe média alta não são alvos de chacinas praticadas por grupos de extermínio.


Os motivos que levam as pessoas a se solidarizar e se chocar com a morte violenta de uns e não de outros são muitos. No entanto, não consigo deixar de lamentar com profunda tristeza e indignação o fato de termos nos tornado uma sociedade tão hipócrita e cruel a ponto de atribuirmos valor ao que não deveria ter preço: a vida humana.


*Texto originalmente publicado na página do "Quebrando o Tabu"

quinta-feira, 20 de agosto de 2015

Princesinha do papai

"Meu pai não me deixava chegar tarde nem trazer namorado para dormir em casa. Meu irmão podia fazer todas essas coisas, eu não. Mas fora isso, ele é o máximo.” Assim definiu seu progenitor uma grande amiga minha. Imagino que seu pai seja mesmo um cara legal, embora tenha deixado uma marca indelével na vida dela: sua criação fez com que acreditasse, mesmo sem ter consciência disso e por muitos anos, que é aceitável que homens e mulheres sejam tratados com direitos e moral diferentes. Pior: que eles têm valores distintos.

Nossa visão de mundo é influenciada por vários fatores, experiências e pessoas. Aprendemos com o que lemos, ouvimos e vivemos, com aqueles com quem cruzamos no caminho, com as reflexões que fazemos. O modo como enxergamos o mundo está em constante formação e, por isso mesmo, pode mudar.

Contudo, há algo que, depois de constituído, dá um trabalhão danado alterar: a forma como nos vemos, nossa autoimagem. As experiências das várias etapas da vida, incluindo infância e adolescência, são essenciais para o contorno da imagem que teremos de nós, que se reflete na maneira como nos colocamos no mundo e na nossa autoestima. Na fase de formação, o pai tem papel extremamente importante.

Um pai machista faz um belo estrago na vida de uma menina. Ele é a primeira referência masculina para a filha, e suas opiniões e o modo como enxerga o mundo e trata as pessoas são primordiais na constituição da sua visão de mundo e de si mesma.

Se ele a faz acreditar que ela não tem o direito de fazer escolhas e que elas não são boas o bastante para serem respeitadas, ela provavelmente vai acabar acreditando. Algumas conseguem, depois de muito empenho e dedicação, mudar a autoimagem negativa que fazem de si mesmas, mas muitas mulheres creem que de fato seus desejos e escolhas valem menos do que os dos outros, em especial dos homens. E que elas merecem pouco da vida, muito pouco.

O pai consciente de sua tarefa é aquele que entende que sua obrigação é fornecer ferramentas (aí também estão incluídos limites e regras, obviamente) para que a filha cresça se sabendo amada e amparada, mas segura e apta para fazer valer suas escolhas. Esse cara, antes de tudo, respeita e acredita na mulher que a filha é e sabe a importância que isso tem na formação da sua autoestima. Ele a ajuda a ser e a acreditar que é capaz.

Se seu pai trata você e seu irmão ou outros homens com regras, moral e direitos diferentes, não permite que você faça certas coisas não porque discorda delas, mas porque você é mulher, desculpe, mas seu pai não é o máximo. Ele é machista. Você vai querer para pai da sua filha um cara assim?


*Texto originalmente publicado na página do "Quebrando o Tabu"

terça-feira, 11 de agosto de 2015

A quem curte pornografia de revanche

Prezado rapaz que expõe vídeos eróticos de parceiras sem sua permissão:

Hoje eu quero lhe contar uma coisa que talvez você não saiba: muita gente faz sexo. Muita mesmo. Não todo mundo, mas muita gente. E várias pessoas fazem sexo com mulheres, porque se sentem atraídos por elas, acham gostoso. Assim como você.

A diferença entre essas pessoas e você é que elas curtem e guardam para si e a parceira o momento que viveram. Você não. Você achou, seja lá por que motivo, que aquela moça com quem compartilhou momentos de prazer, intimidade, sorrisos e confissões deve se envergonhar do que fez. E você vai ser o responsável por isso. Porque você é foda. Você pode.

Sim, você vai trair a confiança que ela depositou em você ao se deixar filmar. Mas tudo bem, porque o importante é você fazê-la sentir vergonha de ter tido prazer ao seu lado. O que vale é você afirmar seu poder. Afinal, onde já se viu uma mulher ousar sentir prazer e ainda por cima demonstrar?

Sua “sorte” é que você vai encontrar outros idiotas como você, que vão lhe dar razão, vão compartilhar seu vídeo, na esperança de difamar uma moça que, muitas vezes, nem conhecem. Eles vão rir, vão tecer comentários maldosos, vão se divertir com o fato de uma mulher ter feito exatamente o que eles fazem, vão adorar afirmar o poder sobre as mulheres.

Essa moça que há minutos você levou para cama não merece a menor consideração. Você não se importa com o que ela sente, com o que dizem dela, com o impacto que sua atitude eventualmente causará em sua vida. Porque, para você, ela é lixo. Se você a julgasse gente, certamente não agiria assim, não é?

Quer saber? Eu também me envergonharia, se fosse ela. Não por ter feito sexo, mas por ter feito sexo com você. Porque você é um merda.

Só posso torcer para que ela levante a cabeça e siga adiante, e seja mais feliz em suas escolhas. Existe muita gente bacana no mundo. Ninguém tem que se sentir envergonhado por fazer sexo, nem por ter se deixado filmar ou seja lá o que tenha decidido fazer em comum acordo com o parceiro na cama. O babaca é você, ela é vítima.

Não vou dizer para as meninas não se deixarem filmar, para duvidarem do parceiro porque existem idiotas como você. Não se faz sexo sem confiança, sem entrega, e ensinar as meninas a se policiar, a desconfiar, a controlar seus desejos é privá-las do que há mais bonito no sexo: a cumplicidade.

Mas, calma, não quero apenas criticá-lo, também tenho uma sugestão a lhe fazer. Por que você não deixa o sexo compartilhado com quem gosta de gente, com que respeita os seres humanos e vai se filmar sozinho pelado em frente ao espelho? Bem macho, bem garanhão. Afinal, você é foda.


*Texto originalmente publicado na página do "Quebrando o Tabu"

terça-feira, 4 de agosto de 2015

Machismo e nossas filhas


Toda mulher nasce exposta ao machismo, embora em graus diferentes. Quando pequenas, mandam-nos tomar cuidado para não mostrarmos a calcinha por baixo do vestido. Não nos deixam sentar de perna aberta, ensinam-nos a nos comportar, a não usar roupa muito curta, a não ceder aos meninos e nos proteger dos homens, como se eles fossem todos uns tarados prontos para nos agarrar.


Então a gente cresce. E, bem ou mal, aprende a se defender das cantadas, dos preconceitos e julgamentos morais, e tenta reconstruir a autoestima e a autoconfiança que foram minadas durante anos e anos, em um processo que tem sido bastante útil à sociedade patriarcal.


De repente a gente tem filhas. E vê que embora tenhamos aprendido a nos defender e nos impor, nada nos preparou para enfrentar o machismo que vitima uma filha. Nada.


Semana passada, minha caçula brincava na piscina usando apenas a parte de baixo do biquíni. A salva-vidas, uma mulher jovem, pediu que colocássemos uma camiseta nela para protegê-la dos meninos e homens que dividiam a piscina conosco. Minha filha tem apenas 5 anos.


Estávamos em outro país, mas a situação bem poderia ter acontecido no Brasil, onde cenas parecidas de sexualização precoce de meninas ocorrem diariamente.


Não pretendo julgar a mulher. Não a conheço, não sei por quais situações passou para pedir algo tão sem sentido. Também acredito que sua intenção fosse mesmo proteger minha filha, por mais absurdo que isso possa parecer. Para mim, ela é tão vítima quanto minha menina.


A força, a coragem, a rebeldia desaparecem quando a vítima é aquela criaturinha tão amada, criada para ter força, mas ainda despreparada para enfrentar o preconceito. A gente se sente desamparada, frágil. E com raiva, muita raiva.


Na hora fiquei paralisada. Não sabia o que fazer. Senti uma tristeza enorme por mim, por minha filha, por aquela mulher. Acreditem, não foi nada fácil entender e assumir que apesar de hoje saber me defender relativamente bem do machismo, ainda não estou pronta para proteger minhas filhas.


No fim, o pai da minha filha se negou a pôr a parte de cima do biquíni nela e disse que o pedido não tinha cabimento, que se algum homem se sentisse atraído pelo peito desnudo de uma menina de 5 anos, quem teria um problema seria ele, não ela.


Negar-nos a ceder à pressão para vestir o biquíni foi mais que um ato de resistência: foi uma demonstração de que mulheres e homens devem combater o machismo, não podem engolir quietos que tratem as meninas desse modo.


Sempre que se aponta um preconceito, aparece alguém para chamar a denuncia de “vitimização” ou dizer que o ocorrido não foi tão grave assim, em uma tentativa frustrada de deslegitimá-lo. Meu recado para essas pessoas: não ensino minhas filhas e sobrinhas a ser vítimas, mas a olhar o que está errado, a questionar, a lutar contra os preconceitos e procurar jamais reproduzi-lo contra os outros. Ensino-as, também, a escutar as pessoas e a ter empatia por seu sofrimento, mesmo que não o compreendam bem.

Para as gerações que já estão aqui e para as novas que virão, só posso torcer e lutar para que o mundo melhore. Pois por mais que certos hábitos, atitudes e costumes sejam diferentes dos seus e dos meus, todos merecem respeito, desde a infância até a velhice.

*Texto originalmente publicado na página do "Quebrando o Tabu"

quarta-feira, 29 de julho de 2015

A carta


Faz dois meses que você se foi devagarinho, nenhum movimento brusco, sem dizer palavra. Tão diferente da primeira vez, quando arrombou a porta, ocupou os poros, aboletou-se onde não podia.


E me deixou ali. Não chorei nem gritei, meu amor não é de arroubos. Restou de nós apenas a certeza de que, na verdade, você nunca entrou.


Acho que nunca soube a hora exata de sair de cena. Mesmo sem querer, insisto, demoro-me mais do que devia. Assim, ficou para você a incumbência de nos deixar. E eu, que sempre preferi o movimento à calmaria, talvez até goste da liberdade que sua ausência me trará.


Suas frases feitas e seu riso ainda ecoam em silêncio, enchem o quarto. Difícil não escutá-los. Do seu rosto, todavia, tenho poucas lembranças. Incrível como a distância traz o esquecimento, embora acentue a doçura dos detalhes: sua mão pesada, a boca macia, os olhos profundos e, ao mesmo tempo, tão incompreensíveis.


Minha pretensão nunca foi atê-lo a mim; sempre o quis livre. Não soube, no entanto, aceitar a solidão das suas entradas e saídas despretensiosas, que me alegravam a superfície com a mesma intensidade com que me feriam. 


Não vai ser difícil caminhar sem você. Sempre segui sozinha, afinal. Talvez a leveza de não ter de carregar nossa imagem improvável torne meu caminho mais sereno.


Sinto não ter dado conta de nós dois. Nunca foi minha intenção amá-lo. Levo comigo a noção exata de que você nunca sonhou meus desejos e o pouco que pude juntar de nós. E a sensação de que, apesar do meu esforço, lhe deixei quase nada.

segunda-feira, 27 de julho de 2015

Iscas

Outro dia, na página deste blog no FB, disse que as baladas que cobram meia entrada de mulheres o fazem não apenas porque elas consomem menos, mas porque usam as mulheres como ‘iscas’ para atrair homens. Muita gente não entendeu, então resolvi explicar.

Há alguns anos fui a uma dessas festas em que mulheres não pagavam consumação até a meia-noite. Deparei-me com um cenário deprimente: dezenas de meninas, algumas certamente menores de idade ingerindo toda a bebida alcóolica que conseguissem. Logo depois, os homens começaram a chegar e encontraram várias meninas bêbadas e alegres. Não devem ter achado ruim, certo?

O hábito de embriagar a mulher para conseguir dela vantagens sexuais é antigo. O cinema eternizou a célebre cena em que o cavalheiro encontra a moça desconhecida e solitária em um bar e resolve lhe pagar uma bebida.

Oferecer bebidas ou preços mais convidativos e entradas gratuitas, selecionar moças bonitas em filas de boates ou criar ‘promoções’ para atrair mulheres são apenas uma variação desse costume que as festas universitárias e as baladas atuais aprimoraram. Não são raros os casos de estupros e abusos nessas festas, muitas vezes praticados pelos próprios colegas da vítima embriagada (aqui faço um breve parênteses apenas para que não haja dúvida: álcool não é desculpa para estupro, esteja a vítima ou o agressor bêbado).

As mulheres são ensinadas a se respeitar, a se dar ‘valor’, o que significa, em outras palavras, ter contato íntimo apenas com quem conhecem bem a ponto de estabelecerem um relacionamento. Toda mulher que resolve agir de modo diferente tem de quebrar uma série de regras e conceitos pré-concebidos que lhe foram empurrados durante anos. Acredite, não é algo fácil. O álcool, muitas vezes, funciona como um empurrão extra para a “liberdade”.

O problema é que essa liberdade é falsa. A verdadeira liberdade sexual implica saber impor suas vontades, arcar com as responsabilidades de seus atos, ter autoconfiança e autoestima elevadas. Poucas mulheres podem se dar ao luxo de se considerar de fato livres nesse sentido. A maioria não o é.

O fato de você ser ou conhecer uma mulher que entre na balada sabendo direitinho o quê e como quer não significa que seja assim para todas. As mulheres ainda são sexualmente oprimidas, e a liberdade de fato é privilégio de poucas, muito poucas. Portanto, é hora de parar de olhar para o próprio umbigo e entender de uma vez por todas que a sociedade vende uma falsa ideia de que as mulheres são livres para usufruir dos benefícios, inclusive financeiros, dessa pretensa liberdade.

Não se iludam: para exercer a própria sexualidade sem preconceitos e com segurança é preciso muito trabalho, muito questionamento, muito autoconhecimento, muita segurança. Caso contrário ela é falsa. E a pretensa liberdade é, muitas vezes, pior e mais perigosa que sua ausência.


*Texto originalmente publicado na página do "Quebrando o Tabu"

segunda-feira, 6 de julho de 2015

Opinião

Quando uma cidade precisa de uma ponte, a prefeitura contrata engenheiros para que executem a obra. Afinal, são eles os especialistas em construção civil. Já quando um parente desenvolve câncer, procuramos um oncologista, o médico especialista em tratar esse tipo de doença. Não nos metemos nas decisões técnicas, embora possamos nos informar e participar delas.

Ninguém diz que acha melhor que a ponte tenha uma envergadura de 20o graus ou que devemos aumentar a dose de determinado quimioterápico, pois pressupõe-se que os profissionais tenham conhecimento e experiência para decidir.

A situação muda de figura quando tratamos de questões que envolvam a sociedade e as ciências humanas. Hoje, por exemplo, a Câmara dos Deputados irá votar a redução da maioridade penal. Muitas pessoas são a favor da redução sem sequer ouvir quem realmente entende do assunto.

A mesma postura vale para a descriminalização do aborto ou a escolha da melhor política de drogas a ser adotada, entre outras questões sociais. Todos dão palpite, poucos consideram aspectos fora da sua opinião estritamente pessoal.

Acontece que essas decisões também envolvem questões técnicas e específicas, como a construção da ponte e o tratamento do câncer. Há profissionais que estudam, debruçam-se sobre a realidade com que trabalham, avaliam pesquisas e dados estatísticos, somam anos de experiência teórica e empírica antes de assumir uma posição sobre determinada questão.

Outros, ainda, não possuem conhecimento teórico, mas vivem e conhecem bem a realidade daqueles a quem determinada decisão vai afetar. Esses também devem ser ouvidos com atenção especial, pois nem todo conhecimento teórico puro dá conta da complexidade do ser humano. 

Nem sempre conseguimos ser imparciais e fazer as melhores escolhas, para construir uma sociedade menos desigual e, portanto, mais justa. As opiniões particulares são, muitas vezes, pouco racionais. Envolvem emoção, credos, valores e experiências individuais. Todos têm direito à opinião, sobre todas as questões. Achar que ela é sempre relevante é o problema.

*Texto originalmente publicado na página do "Quebrando o Tabu"

sexta-feira, 26 de junho de 2015

Intolerância



No fim da tarde de ontem (22/6), o site do qual sou editora publicou uma entrevista com o deputado federal Jean Wyllys. O material faz parte de uma série de entrevistas em que o dr. Drauzio Varella conversa com várias pessoas de áreas diversas.

Pois bem. Dez minutos depois de a entrevista ser publicada, o site saiu do ar, por motivos que ainda estão sendo apurados. Isso significa que quase ninguém viu a entrevista, portanto.


Em poucos minutos, o post que anunciava a matéria no perfil do site no Facebook foi invadido por uma enxurrada de comentários homofóbicos. Nenhum refutava, com argumentos racionais, uma ideia sequer do deputado; todos desfiavam preconceitos.

Costumo me perguntar se a sociedade sempre foi assim preconceituosa e intolerante e apenas encontrou, com as redes sociais, espaço para destilar seu veneno ou se vivemos uma onda conservadora e intolerante. 

Provavelmente as duas coisas, mas na verdade os motivos que nos trouxeram até aqui pouco importam.

O fato é que as pessoas que respeitam os direitos civis e humanos, que questionam seus privilégios e pensam uma sociedade mais justa e igualitária, com espaço para todos, sem racismo, machismo, homofobia, intolerância religiosa (ou uso da religião para justificar abusos) e outros preconceitos acabam se calando diante dos argumentos chulos e grosseiros daqueles que se sentem no direito de julgar e apontar o dedo para os outros, que pregam o ódio e acham que proibição e punição são a resposta para todos nossos males.

Realmente, não é fácil. Na maioria das vezes, o silêncio parece a melhor opção, até porque como argumentar com quem não está disposto sequer a escutar?

Com receio de bater boca e perder tempo com quem não merece, engolimos a intolerância e nos lamentamos com aqueles que pensam como nós. Mas estamos errados. Não podemos nos calar e aceitar que a parte intransigente da sociedade assuma a liderança. Ela sabe se organizar, tem disposição e é, muitas vezes, bem persuasiva. Convence.

Posso ser otimista demais, mas não aceito viver passivamente em um mundo dominado pela mediocridade, que tenta acabar com a beleza da diversidade humana e nos enquadrar em um único modelo. E não vou entregar a sociedade da qual faço parte nas mãos dos intolerantes. Sinto muito.

Se você também se choca com o conservadorismo ignorante que nos assola, por favor, assuma posição. Não se deixe abater, não se esconda, não se omita.

Agora, se você não consegue fazer nada melhor do que xingar e agredir quem é diferente de você, sugiro que bata a cabeça na parede. Dizem que ajuda.

*Texto originalmente publicado na página do "Quebrando o Tabu"

quarta-feira, 24 de junho de 2015

As mulheres e o HIV


Logo que surgiu, no início da década de 1980, aids foi chamada de “peste gay” porque as pessoas pensavam, erroneamente, que a doença atingia apenas os homens homossexuais. Foi necessário pouco tempo para os cientistas demonstrarem que a doença era causada por um vírus, o HIV, e que sua transmissão se dava por via sexual e por sangue contaminado.

Como sabemos, as doenças sexualmente transmissíveis (DSTs) não se restringem a apenas um dos sexos, e logo começaram a surgir casos de mulheres infectadas pelo HIV. Hoje, segundo o Boletim Epidemiológico HIV-Aids, divulgado em 2015 pelo Ministério da Saúde, em 2013 a razão de sexo nas faixas etárias de 20 a 29 anos e de 30 a 39 anos foi de 2,2 e 1,9 casos em homens para cada caso em mulheres, respectivamente, com tendência significativa de aumento nos últimos dez anos.

Há algumas razões para o aumento do número de mulheres infectadas. O primeiro diz respeito à anatomia dos órgãos sexuais femininos, pois a vagina oferece uma superfície de contato mais extensa que o pênis. Além disso, sua mucosa é mais suscetível a feridas e fissuras que podem servir de porta de entrada para o HIV.

O fato de o vírus ser inicialmente associado aos homossexuais fez com que muitos heterossexuais, homens e mulheres, dispensassem o uso de preservativos, acreditando ser imunes ao vírus.

A submissão às regras estabelecidas pelos homens, que frequentemente rejeitam a camisinha, é mais uma razão para a alta prevalência do HIV no sexo feminino. Como boa parte das mulheres é financeira e emocionalmente dependente dos parceiros, não causa estranheza saber que muitas aceitam o sexo sem proteção.

A infidelidade masculina, socialmente aceita, também colabora para que muitas mulheres em relacionamentos estáveis estejam mais vulneráveis à contaminação.

Outro motivo é que a geração mais jovem, que não viveu sob o medo da epidemia de aids, em uma época em que não havia tratamento eficaz contra a doença, deixou de usar preservativo. Segundo o II Levantamento Nacional de Álcool e Drogas (Lenad), divulgado no ano passado, 40% das mulheres não usam camisinha.

A mulher que vive com o HIV enfrenta muitos problemas. Em geral, depende financeiramente do homem que a infectou ou precisa ganhar a vida para sustentar os filhos. O medo do desemprego e do desamparo, entre outros temores, é responsável pelo alto número de distúrbios de ansiedade e depressão entre as soropositivas.

As mulheres mais jovens, que ainda não têm filhos, precisam enfrentar o dilema da maternidade. Apesar de a transmissão vertical (de mãe para filho) hoje ser baixa, graças ao tratamento realizado durante a gravidez, muitas abrem mão da maternidade por medo de contaminar os filhos ou de não viver tempo suficiente para criá-los.

Quando encontram um novo parceiro, as moças solteiras se deparam com uma difícil escolha: revelar logo que têm o vírus ou contar mais tarde, caso se envolvam?

Na primeira hipótese é quase certo que o parceiro se afastará, e ela ainda correrá o risco de que ele revele a outras pessoas seu segredo. No segundo caso, será que o parceiro saberá compreendê-la ou se sentirá enganado?

Na dúvida, muitas optam pela abstinência sexual. E, com medo do preconceito, omitem de todos o fato de ter o vírus. Tomam medicamentos escondidas, mentem para ir ao médico, não revelam nem mesmo aos mais íntimos sua condição.

A ignorância dos que ainda associam o HIV e a aids à promiscuidade também faz com que as mulheres infectadas se escondam, com medo de ser julgadas.

Isolada e solitária, a mulher soropositiva vive a face mais cruel do HIV-aids: o preconceito.

*Texto originalmente publicado no www.drauziovarella.com.br