segunda-feira, 21 de novembro de 2016

Jornada dupla

“Jornada dupla” é o termo comumente usado para caracterizar a função da mulher que trabalha fora e ainda cuida da casa e dos filhos.

Segundo dados da pesquisa realizada pela organização internacional Plan, que defende os direitos das crianças, a jornada dupla das mulheres do país começa ainda na infância.

Realizada com 1.771 meninas de 6 a 14 anos das cinco regiões do país, a pesquisa “Por ser menina no Brasil: crescendo entre direitos e violências” traz resultados assustadores sobre a desigualdade de gênero dentro dos lares brasileiros.

Leia também: Mulher cuida, homem ajuda

Na ausência da mãe, são as meninas que desempenham as tarefas domésticas, mesmo que elas tenham irmãos para ajudá-las. Vamos a alguns dados: 81,4% das meninas entrevistadas arrumam a própria cama, enquanto 11,6% dos irmãos meninos executam a mesma tarefa; 76,8% lavam a louça, ante 12,5% dos irmãos; 65,6% limpam a casa, embora apenas 11,4% dos irmãos dividam o trabalho; 41% das meninas cozinham, diante de 11,4% dos irmãos. Apesar da pouca idade, 34,6% das entrevistadas ajudam a cuidar dos irmãos menores na ausência dos pais, mas somente 10% dos irmãos meninos as auxiliam na função.

Quando interrogadas sobre quem cuida delas no dia a dia, embora pudessem citar mais de uma pessoa, 76,3% apontaram a mãe como cuidadora, enquanto 26,8% responderam que o pai assumia a tarefa.

Ocupadas com o trabalho doméstico, essas meninas não têm tempo para estudar e brincar, sendo obrigadas a assumir sozinhas responsabilidades para as quais não têm, na maioria das vezes, maturidade.
Que futuro terão? Como podemos falar em liberdade e mudança de papéis sociais, se condenamos meninas a seguirem exatamente o mesmo caminho que suas avós e bisavós?

Além de privarmos nossas meninas de diretos, deixamos de ensinar os meninos a desenvolver autonomia e participar da educação e dos cuidados dos filhos, perpetuando um círculo de exploração e desigualdade de gênero, além de legitimarmos a ausência dos futuros pais.

Nada pode ser mais cruel do que aprisionar as meninas desde tenra idade dentro de casa, sem direto à educação plena e ao lazer, aprendendo que a única opção é cuidar sozinhas da família e trabalhar fora para sustenta-la, até que tenham filhas para substituí-las.

*Texto originalmente publicado no site "Casa da Mãe Joanna"

quarta-feira, 19 de outubro de 2016

Ni una menos

[TW: estupro]



A imagem da argentina Lucía Pérez não me sai da cabeça. Talvez por eu ter filha e sobrinha adolescentes, quem sabe por eu mesma já ter levado no rosto o sorriso despreocupado e a leveza de quem, aos 16 anos, ainda não conhece o mundo.

Lucía foi sequestrada, obrigada a consumir doses altas de cocaína e maconha, estuprada e morta por empalamento com uma estaca de madeira por dois homens, em Mar del Plata.

Não há adjetivos cruéis o suficiente para qualificar o assassinato. Nenhuma palavra parece dar conta da violência a que a jovem foi submetida. No entanto, o crime não choca apenas pela estranheza, mas pelo motivo oposto. Apesar de bárbaro, ele é incrivelmente banal.


Leia também: A cultura do estupro

Os crimes sexuais na Argentina aumentaram 78% entre 2008 e 2015, segundo o Ministério da Segurança do país, e Mar del Plata é o município argentino com maior número de condenações por exploração sexual.

Movidas pelos altos índices de violência de gênero e pela morte de Lucía, as argentinas convocaram uma paralisação nacional para esta quarta-feira, 19/10. Espera-se uma mobilização nunca vista, uma tentativa de dar um basta à violência contra a mulher.

No Brasil, a situação também é muito grave. Somos o quinto país que mais mata mulheres por motivações de gênero (feminicídio), de acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS).

O 9º Anuário Brasileiro de Segurança Pública divulgou que em 2014 houve um estupro notificado a cada 11 minutos. Considerando que apenas 30% a 35% dos estupros são comunicados, é possível estimar que haja um caso de estupro por minuto no país.

Se por um lado o estupro é condenável, por outro a sociedade o tolera e o justifica. Tanto que pesquisa encomendada pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública e realizada e divulgada este ano pelo Datafolha revelou que um em cada três brasileiros acredita que a culpa do estupro é da mulher. Existe outra forma mais eficiente de aceitar um crime do que responsabilizar a vítima?

Sim, existe: fazer com que esse mesmo crime esteja intrínseco na cultura do país. O estupro está presente em toda brincadeira entre jovens que riem quando um colega diz que vai “arregaçar” uma mulher na cama, em cada vez que aceitamos a justificativa de que a vítima havia bebido demais, todas as vezes em que permitimos que homens assediem mulheres nas ruas e lhes toquem o corpo sem seu consentimento, sempre que aceitamos que se refiram às mulheres como ornamento disponível ao homem.

É urgente combater a cultura do estupro. Isso só vai ocorrer quando não tolerarmos mais tudo o que vem antes do crime, aquilo que o estimula e o permite.

A pior coisa que podemos fazer por Lucía Pérez é aceitar que o ocorrido com ela foi uma fatalidade, um crime cometido por dois psicopatas. Não foi. E é exatamente por sua trivialidade que devemos nos mobilizar.

  

segunda-feira, 12 de setembro de 2016

Odor vaginal: por que ainda o tememos?

Muitas mulheres têm vergonha e dificuldade em aceitar que a vulva tem odor característico. Assim, valem-se de uma infinidade de produtos e medidas para disfarçá-lo, podendo, com isso, comprometer a saúde ginecológica.

A dra. Renata Lopes Ribeiro, médica assistente da Clínica Obstétrica Fetal do Fleury e da Maternidade São Luiz, ambas em São Paulo, esclarece as principais dúvidas sobre o tema:


1) Toda vagina tem odor? Por que ele ocorre?
A vagina elimina naturalmente secreções e odores resultantes do processo fisiológico de renovação celular, por isso toda mulher tem secreção e odor vaginal. Na maioria das vezes, esse odor é suave, pouco perceptível e pode mudar de intensidade e característica de acordo com as fases do ciclo menstrual.

2) Como saber se o odor vaginal indica a presença de algum processo infeccioso?
É muito importante que as mulheres saibam que toda vulva tem um cheiro natural característico, e que não há nada de errado nisso. Porém, o odor vaginal pode indicar infecção caso mude suas características habituais, fique muito intenso e esteja acompanhado de outros sintomas como coceira, ardência, corrimento vaginal (especialmente de coloração amarelada ou esverdeada) ou incômodo ou dor durante a relação sexual. Nesses casos, os sintomas podem indicar um desequilíbrio na flora vaginal e a presença de processos infecciosos que podem precisar de tratamento ginecológico.

3) O que fazer na presença desses sinais e sintomas?
Esses são sintomas de alerta, por isso é recomendado que, na sua presença, a mulher procure um ginecologista para avaliação. Corrimento e odor forte podem indicar desde infecções mais leves, causadas por fungos e bactérias que se proliferam quando há um desequilíbrio da flora vaginal, até doenças sexualmente transmissíveis, como clamídia e gonorreia. Menos comumente, esses sintomas surgem devido à retenção de objetos, como absorvente íntimo ou camisinha, no interior da vagina.

4) As duchas vaginais são indicadas para a higiene vaginal? Por quê?
Para eliminar o odor vaginal e se sentir mais limpas, algumas mulheres recorrem às duchas vaginais com os mais diferentes produtos. Porém, elas não são recomendadas, uma vez que podem alterar a flora vaginal, atrapalhando a defesa do organismo, além de favorecerem a ascensão de micro-organismos de fora para dentro da vagina. Também podem, dependendo da intensidade, causar microlesões na mucosa vaginal.

5) O uso de sabonetes e lenços íntimos é recomendado para a higiene íntima?
Os sabonetes íntimos normalmente possuem pH mais ácido (entre 4,5 e 5,5), que se assemelha ao pH vulvar, e são hipoalergênicos. São dispensáveis, ou seja, não são necessários para realizar a higiene íntima adequada. No entanto, algumas mulheres se sentem bem ao usá-los, e podem fazê-lo desde que não os utilizem mais de uma vez ao dia, pois seu uso excessivo pode remover a proteção local e desidratar a pele e a mucosa vaginal.

O uso de lenços íntimos, por sua vez, pode ser um recurso útil quando a mulher não estiver em casa, mas é importante evitar ficções intensas e o uso demasiado.

6) O absorvente diário (protetor de calcinha) ajuda a evitar o odor vaginal?
O uso de absorvente diário é um hábito relativamente comum entre as mulheres, para evitar que a secreção vaginal fique na roupa íntima. Porém, essa prática dificulta a ventilação da área íntima e favorece a multiplicação de bactérias e fungos, portanto deve ser evitada.

7) Como higienizar a região íntima corretamente?
A higienização da vulva (região externa) deve ser feita uma vez ao dia durante o banho, sem fricções intensas, com água e sabonete neutro, durante um a três minutos. Dê preferência a sabonetes sem muita atividade detergente, sem perfume exagerado e que não tenham pH muito ácido. Os sabonetes de glicerina são uma boa opção. Sabonetes com muitos produtos químicos podem predispor a reações alérgicas. Evite, também, o uso de buchas e esponjas.

A higiene excessiva pode piorar o odor vaginal, pois remove a proteção natural local, predispondo a infecções e reações alérgicas.

8) Algumas mulheres reclamam de odor forte durante a menstruação. Como evitá-lo?
A higiene íntima não precisa ser alterada durante o período menstrual. No entanto, é preciso trocar os absorventes internos ou externos com frequência, pois se o tempo de troca não for respeitado, o sangue se acumulará no absorvente, podendo ocasionar mau cheiro.

9) Roupa justa ajuda a intensificar o odor vaginal? Qual a roupa íntima mais indicada?
A roupa muito justa dificulta a circulação de ar no local, o que predispõe ao acúmulo de fungos e bactérias que podem favorecer infecções e causar odor desagradável. Prefira roupas mais largas e opte por calcinhas de algodão.

10) É comum o odor diferir de uma mulher para outra? O que é possível fazer para reduzir o odor mais intenso?
Certas características individuais podem fazer com que algumas mulheres tenham um odor mais intenso, tais como: 1) transpiração excessiva: nesse caso, recomenda-se a troca mais frequente de roupa íntima e que se dê preferência para peças de algodão; 2) obesidade: as dobras da pele podem acumular secreções, pois isso é indicado que se dê atenção especial a essas áreas, mantendo-as sempre limpas e secas; e 3) alimentação: algumas mulheres relatam mudança no odor vaginal quando ingerem alimentos como determinados peixes, alho ou certos suplementos. No entanto, isso é pouco comum e basta evitar o consumo desses alimentos para que o odor volte às suas características habituais.

Sexo Oral
Se toda mulher tem odor na região íntima e essa é uma característica natural e fisiológica, por que tantas mulheres não se sentem à vontade durante o sexo, especialmente por terem vergonha do próprio cheiro?

Um número muito alto de mulheres desconhece o próprio corpo e sua sexualidade. A pesquisa Mosaico 2.0, divulgada em 2015 e coordenada pela psiquiatra Carmita Abdo, do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), entrevistou 3 mil pessoas entre 18 e 70 anos de sete regiões metropolitanas do país. Os dados revelam que 40% das mulheres não têm o hábito de se masturbar e 19,5% nunca o fizeram. Já entre os homens, apenas 17,3% não praticam a masturbação habitualmente.

Assim, não é surpresa que 44,4% das mulheres relatem algum grau de dificuldade em atingir o orgasmo e que sejam comuns as queixas de falta de libido nos consultórios médicos.

Por que isso ocorre? A resposta é simples: a desigualdade de gênero, comum à nossa cultura, limita a expressão da sexualidade feminina, que historicamente sempre foi reprimida.

Sem se conhecer nem saber o que de fato lhe dá prazer, como as mulheres podem se aceitar e desenvolver todo o potencial da sua sexualidade, ainda mais considerando que muitas sequer se julgam merecedoras do prazer sexual?

As meninas aprendem desde cedo que se tocar é algo feio e sujo, que deve ser evitado. Os adultos não costumam conversar com elas sobre a importância do prazer sexual e como é possível chegar a ele. Portanto, elas crescem sem estabelecer uma relação de intimidade com o próprio corpo.

Na vida adulta, a desigualdade entre homens e mulheres chega à cama. Elas temem ser julgadas por determinadas atitudes e comportamentos, o que limita o prazer sexual. São poucas as que conseguem expressar suas vontades e desejos com naturalidade, assim como são raros os homens dispostos a atendê-los.

Portanto, ainda é comum que a mulher e a vagina sejam vistas apenas como meios de dar prazer ao homem e trazer os filhos ao mundo. O órgão sexual feminino é tido como feio, desconhecido, algo que não deve ser encarado e aceito. A enorme quantidade de produtos que prometem diminuir e disfarçar o odor vaginal à disposição nas farmácias e drogarias são a prova de que a sociedade ainda não sabe lidar e aceitar o corpo feminino.

Outra pesquisa realizada em 2015 no estado de São Paulo, essa pela empresa Sex Wipes, com 1.252 homens heterossexuais e sexualmente ativos de 18 a 30 anos, revelou que 43% (4 em 10) não realizam sexo oral nas parceiras, embora 78% afirmem receber. Dos que o praticam nas companheiras, 35% dizem não gostar de fazê-lo. O motivo? Nojo: da aparência, do cheiro e da umidade da vulva.

Não há explicação lógica para alguém sentir nojo da pessoa que o atrai sexualmente que não envolva aspectos culturais machistas que nos distanciam, homens e mulheres, do corpo e da sexualidade feminina.


*Texto originalmente publicado no site Drauzio Varella

quarta-feira, 31 de agosto de 2016

Mães meninas

As meninas mais pobres têm maior risco de engravidar do que as mais ricas. É o que revela a pesquisa Pense 2015 (IBGE), feita com estudantes do 9° ano do ensino fundamental de todo o país.

Os dados mostram que 27,5% (723,5 mil) dos alunos do 9° ano, que têm em média 14 anos de idade, já mantiveram relações sexuais: 36% dos meninos e 19,5% das meninas.

Das meninas que fizeram sexo, 9% declararam ter engravidado alguma vez, o que representa 23.620 meninas. Dessas, a maioria cursava a rede pública (9,4%). Apenas 3,5% das meninas que já engravidaram frequentavam a rede privada de ensino.

Mas por que as meninas de classes sociais menos favorecidas ainda engravidam mais do que as de classe média e ricas, se quase 90% dos alunos afirmaram receber informações sobre gravidez e saúde sexual? A resposta é simples: informação por si só não é suficiente.


Leia também: Elas não usam camisinha
Em primeiro lugar, pensemos apenas no que oferecemos às meninas e deixemos os rapazes de lado, pois é sabido que os homens, tanto os mais ricos quanto os mais pobres, em geral se importam pouco com a contracepção, embora essa devesse ser tarefa de todos, homens e mulheres.

Proporcionamos às mais ricas uma educação de melhor qualidade, que lhes permite criar expectativas em relação ao futuro, além de mais oportunidades. Assim, sonhos e planos como viajar, entrar em uma faculdade, conhecer outros lugares e pessoas e aprender novas habilidades quase sempre antecedem o desejo da maternidade.

Quando essas meninas entram em idade fértil, conversamos com elas sobre sexo e as levamos ao ginecologista, que passa a acompanhá-las com frequência e a orientá-las na escolha do melhor método anticoncepcional, a que certamente terão acesso.

Se os anticoncepcionais por acaso falharem, pagamos-lhes o aborto em clínicas onde podem contar com médicos que lhes garantam segurança. Para as mulheres de classe social mais alta, a criminalização do aborto pode ser resolvida com dinheiro.

As meninas mais ricas não se sentem socialmente pressionadas a engravidar; suas amigas não têm filhos e a elas são oferecidos vários papéis sociais que não o de mãe.

Com um ou mais filhos nos braços, as meninas de classes sociais mais baixas que mal saíram da infância não conseguem dar seguimento aos estudos, tampouco melhorar as condições de vida da família. Acabam destinadas a serviços mal remunerados, de onde tiram o sustento dos filhos, muitas vezes sem nenhum apoio.

Para as mulheres de classes mais abastadas, a maternidade é, na maioria das ocasiões, uma escolha e não um destino do qual não se pode fugir. Por que aceitamos condenar as mais pobres a uma realidade que evitamos para nossas filhas?


*Texto originalmente publicado na página do "Quebrando o Tabu"

segunda-feira, 15 de agosto de 2016

Homens e a mania dos nudes sem consentimento

Imagine que você tenha acabado de acordar e de tomar café da manhã e esteja aproveitando os únicos minutos de folga que terá no dia para dar uma olhada nas mensagens do Facebook. De repente, percebe que recebeu uma mensagem de um desconhecido. Mais curiosa do que receosa, clica nela. Então, eis que surge em sua tela do computador um pênis ereto com a legenda “Oi, gata, vamos conversar?”.

Agora suponha que você esteja solteira há algum tempo e tenha cedido aos convites de amigos para entrar no Tinder, aplicativo que facilita encontros entre as pessoas. Você não curte muito a ideia, até ‘conhecer’ um rapaz que lhe parece interessante. Vocês trocam mensagens cujo conteúdo parece saído de uma festa de adolescentes: um gracejo sem jeito aqui, uma pergunta sobre a profissão acolá. Despedem-se sem grande entusiasmo. Dois dias depois, ei-la: a foto do pinto. Sem aviso prévio, sem pedido, sem intimidade que possa ter tornado possível a ousadia.

Essas duas histórias aconteceram com amigas minhas, mas são inúmeros os casos de mulheres que reclamam de homens, a maioria estranhos ou apenas conhecidos, que mandam fotos de pênis sem a menor cerimônia. É tão frequente que já virou piada entre as mulheres.

Sempre me surpreendi com a admiração e o orgulho que os homens sentem pelo seu órgão sexual. É uma verdadeira adoração, quase um culto, a ponto de não se constrangerem ao mandar fotos do dito-cujo a desconhecidas que nunca sequer lhe dirigiram a palavra. Tem que ter muita autoconfiança, né?

Desconfio, inclusive, que Freud tenha criado sua teoria sobre a inveja que as mulheres teriam do pênis ao receber uma bronca de uma senhora que não gostou de ver o órgão do médico aparecer sem ser convidado, fazendo o famoso psicanalista pensar: "Ah, não curtiu ver um pinto surgir aleatoriamente na sua frente? Isso porque as mulheres são recalcadas, têm inveja do nosso membro forte e viril!"

Brincadeiras à parte, assim como conheço inúmeras mulheres que recebem essas fotos, não sei de uma sequer que ache isso legal. Porque, sim, algumas de nós (surpresa: não todas!) gostam de pinto, mas do cara de quem elas estão a fim ou pelo menos têm algum interesse sexual. Mandar fotos íntimas tem a ver com aquela palavrinha mágica que muitos homens fazem questão de ignorar: consentimento.

Não consigo deixar de pensar no intuito da foto. Por acaso esses homens acham que alguma mulher vai olhar para ela e dizer: “Ah, que pinto lindo, vou convidar o dono para sair”? Se a estratégia dá certo, desconheço. De todo jeito, posso afirmar que nunca a vi funcionar.

Acredito que certos homens façam isso para afirmar poder. Usam o falo para intimidar, para mostrar que dominam, não para atrair. Além de exibir um enorme desconhecimento da sexualidade humana, que envolve muito mais do que órgãos sexuais, eles parecem dizer: “Vejam como sou viril, macho e poderoso, tenho pinto!”.

Se as mulheres fossem vingativas, exporiam esses homens na internet. Talvez fosse o único modo de constranger os rapazes e impedi-los de continuar a nos incomodar. Por outro lado, era capaz de eles gostarem e começarem a mandar mais fotos. Não sei.

Então, peço encarecidamente: guardem o pau para momentos de intimidade ou pelo menos deixe para exibi-lo quando lhe solicitarem. Por mais orgulho que você tenha dele, ninguém quer começar o dia com sua afirmação de macheza e poder em forma de falo. Quando quisermos, a gente avisa.


*Texto originalmente publicado na página do "Quebrando o Tabu"

terça-feira, 9 de agosto de 2016

Homens e o debate sobre igualdade de gênero

Acho importante atrair os homens para o debate sobre igualdade de gênero e direitos da mulher, ainda mais se pensarmos que são eles que ainda detêm os principais cargos de poder.

E, sim, vejo muitos interessados em debater, em escutar nossas demandas, principalmente os mais jovens.

Uma crítica comum que os homens fazem ao movimento feminista é que não os deixamos opinar e os colocamos logo de cara sob suspeita, como inimigos.

Eu convido os homens que reclamam a inverter o jogo e, em vez de acusar, se perguntar: por que será que isso acontece? Será que as feministas são todas radicais que odeiam os homens e querem combatê-los? Será que o feminismo é sobre homens?

O que ocorre, caros, é que a maioria dos homens age com desonestidade ao falar de feminismo. Não escuta, não se informa, pega trechos de discursos fora de contexto ou unifica o movimento em uma caixa que lhes convém.

E isso irrita porque nos desqualifica, nos resume a um bando de malucas radicais que só querem xingar homem.

Antes de falar sobre qualquer coisa, é preciso saber sobre o que se fala, ter humildade para escutar, estudar, pesquisar.

Ou os homens baixam um pouco a bola (sei que é difícil para quem sempre foi reconhecido como certo) ou não vai haver diálogo. Infelizmente.


*Texto originalmente publicado no site "Casa da Mãe Joanna"

Relativização da violência contra a mulher

“Eu queria primeiro deixá-la ciente do quanto ela prejudicou minha carreira. [...] Presenciei tudo e sei o quanto estávamos em clima de descontração. Errei por ter feito as brincadeiras que fiz com uma pessoa que não conheço”, disse MC Biel à RedeTV! sobre o episódio de assédio a uma jornalista protagonizado por ele, em maio deste ano.

Além de tentar inverter o jogo fazendo-se de vítima, Biel relativiza a violência do assédio, dizendo que fez uma “brincadeira”. Se assim fosse, a moça que o denunciou, além de ser mal-intencionada por tentar acabar com a carreira do rapaz, ainda não teria senso de humor.

Há quarenta anos, o playboy Doca Street comovia o país ao chorar diante das câmeras de TV depois de assassinar a companheira Ângela Diniz com quatro tiros (três no rosto). A família e os amigos de Ângela tiveram de assistir a um julgamento que transformava a vítima em uma mulher manipuladora, infiel, violenta, sexualmente incontrolável e provocante que cavou a própria sepultura.

Doca passou pouco mais de 5 anos na cadeia, retomou a vida, casou-se, teve filhos, escreveu um livro sobre o caso e ainda disse em entrevista à revista IstoÉ: “A Ângela até nem sofreu, porque morreu. Quem fica, sofre”. É de dar pena, não?

Quarenta anos é bastante tempo, e muita coisa mudou de lá para cá. No entanto, as mulheres ainda continuam sendo culpabilizadas pela violência que sofrem.

A facilidade com que assassinos, estupradores, assediadores e espancadores se dizem arrependidos e tentam comover a sociedade ao justificar suas atitudes é chocante. E eles fazem isso por um único motivo: funciona.

Não conheço nenhum outro crime em que se dizer arrependido e colocar a responsabilidade na vítima sejam uma tática de defesa tão bem sucedida. Ninguém diz a uma vítima de assalto que ela provocou o crime, muito menos um ladrão tem o descaramento de afirmar que a denúncia de suas vítimas atrapalhou sua vida.

Por que, então, aceitamos que homens justifiquem seus crimes quando as vítimas são mulheres? Por que buscamos respostas na atitude e no comportamento de quem sofreu a agressão para explicar a violência do agressor? Até quando vamos dar atenção e espaço na mídia e na sociedade em geral para homens destilarem seu “arrependimento” em busca de redenção?

Dizer que nada justifica a violência é chover no molhado. Contudo, isso não se aplica quando a vítima é mulher.

Como veem, 40 anos não é tanto tempo assim.

*Texto originalmente publicado na página do "Quebrando o Tabu"

quarta-feira, 27 de julho de 2016

Amores e montanhas

Que não existe só uma maneira de se relacionar afetivamente, acho que a maioria das pessoas, principalmente as mais jovens, concorda. Os seres humanos são diversos, assim como seus desejos e sentimentos. Pensar que há apenas um modelo que dê conta de todo mundo é, no mínimo, muita inocência.

Foi-se o tempo em que somente a relação heternormativa e monogâmica era a única possibilidade. Hoje as opções, ainda bem, são mais amplas. Existem muitos modelos de relacionamento possíveis, e cada um pode escolher como e com quem quer se relacionar amorosamente. No entanto, essa liberdade de escolha não é, de fato, uma possibilidade real para todas as mulheres.

Educadas e ensinadas a acreditar no amor romântico e a esperar mais dos homens do que de si mesmas, as que percebem que estão embarcando em uma furada ao buscar um relacionamento amoroso que satisfaça todas suas necessidades vivem um dilema: como ir contra tudo aquilo que a sociedade espera delas sem as ferramentas necessárias?

É como se de repente dissessem a um grupo de crianças: “Olha, vocês não precisam brincar só de casinha, podem escalar montanhas também, só que não vamos lhes dar o equipamento e o treino necessários”. A maioria vai preferir a velha casinha, que embora não seja lá essas coisas, pelo menos é segura e conhecida; as que se aventurarem na montanha provavelmente vão se machucar feio.

Para se relacionar com o outro em pé de igualdade, é preciso admitir seus limites, seus desejos, suas expectativas. É necessário, acima de tudo, aceitar-se e respeitar-se, conhecer, gostar e confiar em si, e isso não ensinam às mulheres. Ao contrário, ensinam-nos a buscar a felicidade no outro: no parceiro ideal, no marido perfeito, nos filhos que virão, na família a quem deveremos dedicar a vida.

As diversas possibilidades hoje disponíveis, sem os meios necessários para vivê-las em sua plenitude, tornam-se, portanto, uma armadilha perigosa.

O resultado é que muitas mulheres continuam à mercê dos parceiros, mesmo que vivenciando modelos de relacionamento diferentes. São eles que dão o tom. Porque o problema não está nos modelos, apenas, mas no fato de que às mulheres não são dadas as oportunidades de desenvolver e expressar seus desejos.

A verdadeira liberdade não consiste apenas em oferecer possibilidades, mas em fornecer ferramentas para que todos e todas tenham condições de dela desfrutar. Qualquer coisa fora disso é migalha, um arremedo de liberdade. E uma cilada para os incautos.

*Texto originalmente publicado na página do "Quebrando o Tabu"

quinta-feira, 21 de julho de 2016

A desculpa do crime passional

Há cinco dias, Cristiane de Souza Andrade foi assassinada a facadas na frente da filha de 7 anos, quando caminhava pela rua próxima à sua casa, no Rio de Janeiro. A cena da menina pedindo ajuda, coberta pelo sangue da mãe, ganhou os noticiários do Brasil e do mundo.

O que parecia uma tentativa de assalto malsucedida ganhou contornos de “crime passional”. Rojelson Santos Baptista, assassino confesso, contou que mantivera um relacionamento amoroso com a vítima, que se recusara a continuar a relação, motivando o crime. A família de Cristiane, no entanto, nega veementemente a versão do criminoso, afirmando que ela vivia com outro homem havia alguns anos. Apesar disso, a Policia Civil, mesmo sem divulgar nenhuma prova concreta, assumiu a versão dada por Rojelson como verdadeira.

Infelizmente, quem poderia esclarecer os fatos, a própria Cristiane, não tem como se defender da acusação de trair o namorado e ainda abandonar o amante inconformado, mas não me surpreenderia se o assassino estivesse inventando a história. Na verdade, ele tem todos os motivos para fazê-lo.

Acusado anteriormente de tentar matar uma ex-companheira também a facadas, Rojelson foi inocentado da acusação. Pôde desfrutar da liberdade até matar Cristiane diante da filha pequena. Ele não é exceção. Agredir uma mulher não costuma levar quase ninguém à cadeia: apenas 7% dos agressores domésticos são presos ou aguardam julgamento no Brasil (Mapa da Violência 2015).

Os crimes ditos passionais, que hoje são considerados feminicídios por lei e nada têm a ver com paixão e sim com misoginia e machismo, sempre foram tolerados pela sociedade. Tanto é que a cada uma hora e meia uma mulher é assassinada no Brasil apenas por ser mulher (Ipea, 2012). São 472 mulheres mortas por mês, a maioria por parentes, parceiros ou ex-parceiros (mais de 50%, segundo o Mapa da Viol.) que já agrediram ou ameaçaram a vítima anteriormente.

Rojelson tem todas as razões do mundo para difamar e tentar responsabilizar Cristiane de alguma forma, embora nada justifique seu assassinato. Sabe que terá mais chances de sensibilizar a Justiça posando de mal-amado e ferido emocionalmente por uma mulher que ousou lhe dizer não, pois já confirmou que a tática costuma dar certo. Para a polícia e demais autoridades, também é mais fácil acreditar na história do assassino, afinal o Rio de Janeiro sediará as Olimpíadas em breve e ninguém precisa de mais uma história de latrocínio para escancarar a falta de segurança pública da cidade, não é mesmo?

O fato é que poucos se importam com as milhares de Cristianes que morrem todos os anos no Brasil, muito menos com o que dizem delas. Culpar as vítimas, principalmente quando são mulheres, é o que fazemos de melhor.

*Texto originalmente publicado na página do "Quebrando o Tabu"

sexta-feira, 10 de junho de 2016

Violência depois da violência

Os casos recentes de violência contra a mulher com maior repercussão na mídia deixam claro para quem quiser ver que as vítimas sofreram pelo menos duas violências: a do ato criminoso em si e a praticada pela sociedade quando de sua denúncia.

Ao contrário da forma como tratamos a maioria dos delitos e crimes, somos coniventes com a violência contra a mulher e impiedosos com as vítimas. Embora ninguém questione o caráter e o comportamento de quem tem o carro roubado, por exemplo, a vida das mulheres vítimas de agressões é sempre devastada. Perguntas sobre sua vida sexual, seu comportamento, suas roupas, hábitos e práticas são comuns, independentemente do crime sofrido. A falha no atendimento adequado dessas mulheres também é recorrente.

Por outro lado, aceitamos qualquer desculpa esfarrapada que justifique as violências: a saia curta, o gênio ruim, o fato de ter bebido demais, o comportamento dito libertino, o jeito pouco incisivo de se comunicar. Qualquer pretexto serve para colocar em dúvida a violência cometida e a reputação de quem a sofreu.

Será que à jornalista que denunciou o assédio do funkeiro Biel não faltaria senso de humor para encarar suas piadinhas? A vítima do estupro coletivo no Rio não teria aceitado fazer sexo com um bando de homens, a maioria desconhecida, em um quarto imundo, por prazer? A mulher do ator Johnny Depp não estaria atrás de fama e dinheiro ao solicitar uma ordem de restrição temporária em razão de violência doméstica?

É claro que toda denúncia deve ser investigada e não podemos sair condenando as pessoas sem provas. Mas me impressiona a facilidade com que duvidamos das vítimas quando se trata de violência de gênero.

Esse tipo de agressão se ampara em dois pilares básicos: a ideia de supremacia masculina e a de inferioridade feminina. Os homens que a cometem deixam claro sua dominação, o poder que exercem sobre as mulheres. E a forma como a sociedade trata as vítimas que ousam denunciar a violência mostra como as mulheres são vistas como inferiores, como seres que, antes e acima de tudo, merecem descrédito.

Pode parecer exagero, mas é exatamente essa a ideia por trás dos casos de violência de gênero, seja ela doméstica ou não. Não à toa, há tanta subnotificação de ocorrências de violência contra a mulher.

Por isso é tão importante tratar a questão de gênero nas escolas, para que as crianças aprendam a condenar a ideia de supremacia masculina. Enquanto evitarmos encarar e combater o machismo de verdade, as mulheres continuarão a sofrer caladas, para evitar outra violência, dessa vez por parte de quem deveria protegê-las: a sociedade e o Estado.


*Texto originalmente publicado na página do "Quebrando o Tabu"

segunda-feira, 30 de maio de 2016

Homens e cultura do estupro

Preciso confessar: sou uma assassina em potencial. Isso significa que, embora eu nunca tenha matado alguém, tenho todas as condições de fazê-lo.

E o que me impede de cometer um assassinato? Muitos fatores. A educação que recebi, totalmente contrária à ideia de tirar a vida de outro semelhante; a coerção da sociedade, que por meio de suas normas simbólicas e manifestas me mostra desde que nasci que matar alguém é crime; a cultura em que vivo; entre outros.

Se as condições fossem diferentes, eu poderia matar. Isso faz de mim uma assassina? Não. Mas eu sei que posso assassinar alguém. O fato de não fazê-lo é uma escolha, embora influenciada pelos motivos citados acima.

Quando as mulheres dizem que os homens são estupradores em potencial é isto que estamos querendo dizer: os homens têm potencial de estuprar. Nem todos o farão, claro, mas eles têm um papel importante como possíveis atores.

Todo mundo se chocou com o estupro coletivo da menina no Rio. Realmente, foi um crime horrendo. Mas me pergunto: quantas dessas pessoas não se surpreenderiam se soubessem que seus pais, irmãos, filhos, maridos, primos e amigos mexem com mulheres na rua, passam a mão em meninas nas baladas, tratam mal as parceiras, não respeitam as colegas de trabalho e riem de piadas machistas? Talvez muitos dos homens que se horrorizaram com o caso façam eles mesmos essas coisas, sem nem relacioná-las com estupro.

Mas essas atitudes têm, sim, a ver com estupro, que é considerado crime, mas acontece a todo instante. Nem sempre são casos tão extremos como o do Rio, aliás, a maioria é cometida por colegas, maridos, namorados, parentes, vizinhos, homens que fazem parte do dia a dia da vítima.

Estupro é apenas umas das manifestações de uma violência contra a mulher que é estrutural e contínua, que acontece todos os dias, com todas as mulheres.

Então, assim como achamos que é nossa função como sociedade coibir assassinatos e educar nossos filhos para que não sejam assassinos, devemos assumir a responsabilidade de criar uma sociedade livre de violência de gênero e mais igualitária. Uma sociedade em que as mulheres sejam valorizadas, em que seu consentimento seja respeitado e sua voz, ouvida.

Isso é tarefa de todos nós. Ouçam as mulheres.

*Texto originalmente publicado na página do "Quebrando o Tabu"

sexta-feira, 27 de maio de 2016

Estupro: a ponta do iceberg

Em 2014, uma adolescente de 16 anos foi encontrada por familiares em seu quarto segurando o revólver do pai, um PM da cidade de Olímpia, no interior de SP. Ao perceber que a filha ia cometer suicídio, os pais insistiram com a menina para que revelasse o motivo do desespero. Ela, então, confessou: seu avô materno, Moacir Rodrigues Mendonça, a havia levado a um hotel e estuprado dias antes.

Diante da denúncia, Mendonça, então delegado da Polícia Civil, foi preso e assim permaneceu até semana passada, quando o juiz Eduardo Luiz Costa concluiu que não havia “prova segura” para a condenação. Para o juiz, apesar de o réu confessar ter feito sexo com a neta, o estupro não ficou suficientemente comprovado, “não bastando a simples relutância, as negativas tímidas ou a resistência inerte” da vítima para confirmar o crime.

Muito bem. Sempre que falamos em cultura de estupro aparecem pessoas lembrando que o estupro não é crime tolerado, sendo, inclusive, punido com pena de morte nas cadeias brasileiras. É verdade, poucos afirmam em sã consciência que o estupro não é crime. O problema está na definição do que é estupro.

É mais fácil aceitar que uma mulher dominada por um desconhecido, sob a mira de um revólver, seja obrigada a ceder, ou que uma criança de dois anos violentada pelo tio não possa ser considerada responsável pelo ato (acreditem, mesmo nessas circunstâncias haverá quem questione o crime). Contudo, as situações que fogem da cena clássica de estupro, construída no imaginário da sociedade, são sempre postas em dúvida.

Senão, vejamos: o juiz achou mais razoável acreditar que houve uma conspiração envolvendo a ex-esposa, avó da menina, a mãe da jovem, filha do agressor, e a própria neta para incriminá-lo. Julgou aceitável supor que uma menina de 16 anos tenha aceitado ir ao hotel com o avô para fazer sexo; que a tentativa de suicídio fora forjada; que toda a situação de exposição pela qual a menina passou na escola não tenha significado nada.

Isto é cultura do estupro: a aceitação de que homens podem fazer sexo com quem e quando quiserem, independentemente do consentimento da mulher; a desacreditação e culpabilização da vítima, que se sente desencorajada e com medo de denunciar; o estímulo da sexualização precoce de crianças e adolescentes; a falsa noção de que quem comete estupro é sempre doente ou marginal; a ideia de que consentimento não é importante para que haja uma relação sexual, o que justificaria tantos casos de estupro em que a vítima está desacordada.

Enquanto houver cultura de estupro, não me venham dizer que estupro é visto como crime hediondo. Não é, pelo menos nem todo estupro. Faz parte do dia a dia de grande parte das mulheres, que vivem com medo de ser vítima, e só começaremos a mudar essa realidade quando assumirmos que existe, sim, cultura do estupro.

P.S. A propósito, a jovem, ao saber que o avô está solto, teve uma crise nervosa, vomitou inúmeras vezes e precisou ser hospitalizada. Mas talvez isso também faça parte da encenação que as mulheres da família montaram para incriminar o nobre delegado, certo?



*Texto originalmente publicado na página do "Quebrando o Tabu"
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NOTA: 


No dia seguinte à publicação deste texto, o Brasil assistiu estarrecido à notícia do estupro coletivo de uma menina de 17 anos. Trinta e três rapazes doparam, estupraram, filmaram e divulgaram o vídeo do crime, em meio a comentários misóginos e machistas.

Não houve quem não se emocionasse e indignasse. Realmente, não há como ficar indiferente a um caso como esse.

No entanto, eu me pergunto: quantas pessoas que se chocaram não se surpreenderiam se soubessem que seus irmãos, pais, primos, filhos e amigos íntimos passam a mão nas meninas nas baladas, "transam" com garotas totalmente bêbadas, mexem com mulheres na rua, não deixam as amigas terminarem as frases, tratam mal as namoradas e colegas, ignoram o que as mulheres pensam e dizem?


Estupro é a ponta do iceberg, o ápice de uma violência contra a mulher que é muito maior, estruturada, diária e contínua, cometida por homens comuns, que fazem parte do nosso círculo social.

Somos uma sociedade que estimula e tolera a violência contra a mulher. É disso que temos de falar.



quarta-feira, 18 de maio de 2016

Aborto e Igreja

O novo ministro da Saúde, Ricardo Barros, reconheceu, em entrevista à edição de hoje (17/05/16) do jornal “O Estado de São Paulo”, que é preciso discutir com urgência a questão do aborto, e que vai “estudar com muito carinho” o tema. Seria uma postura digna de elogios, se em seguida o ministro não afirmasse que quer conversar com a Igreja antes de traçar diretrizes para agir.

Não pretendo entrar no mérito da questão do aborto, até porque já escrevi várias vezes sobre a importância da sua descriminalização aqui e em outros veículos. Meu ponto é: por que diabos um ministro da Saúde pretende chamar a Igreja para tratar de um tema de saúde pública? Por que não ouvir médicos, profissionais da saúde e estudiosos do assunto?

A resposta parece bastante óbvia: como já conhecemos o posicionamento da Igreja quanto ao aborto, é claro que o ministro, ao dizer que vai escutar a Igreja, isenta-se da responsabilidade de enfrentar a questão. Aliás, ele não será o primeiro a fazê-lo. Até onde sei, o único ministro da Saúde que teve coragem de aceitar discutir o tema de verdade, sem subterfúgios, foi o ex-ministro José Gomes Temporão, que ocupou o cargo entre 2007 e 2011. Mesmo assim, enfrentou sérias resistências no governo e não conseguiu avançar o debate.

Para além dessa questão, o que me parece essencial discutir é se queremos mesmo que a Igreja Católica e outros grupos religiosos continuem impondo condutas para além de seus fiéis. Até quando grupos religiosos seguirão, com aval de representantes políticos, se intrometendo nos direitos dos cidadãos e cidadãs?

Não tenho nada contra quem queira seguir os dogmas da Igreja ou de qualquer religião, só não aceito que eles sejam impostos a mim, e o Estado laico me garante esse direito. É tão difícil entender?

Apesar de boa parte da sociedade não se interessar pela opinião dos religiosos acerca do casamento gay, do aborto, da discussão sobre gênero nas escolas e de outras questões, poucos são os políticos que ousam enfrentar os grupos religiosos. Preferem ignorar os que sofrem com os desmandos da Igreja do que afrontá-la.

Será que ainda veremos um governo, qualquer que seja ele, dizer em alto e bom som para os religiosos que eles não podem opinar no modo como as pessoas que não lhes dão importância devem viver?


*Texto originalmente publicado na página do "Quebrando o Tabu"

segunda-feira, 9 de maio de 2016

Dia das Mães

O Dia das Mães me inspira emoções controversas. Por um lado, acho bonito homenagear as mulheres que criam e cuidam dos filhos, pois só quem o faz sabe a dificuldade que é lançar-se à quase esquizofrênica tarefa de prepará-los e, ao mesmo tempo, defendê-los do mundo.

Por outro, impossível não notar como as homenagens e comemorações desse dia reforçam os estereótipos machistas da mãe cujo instinto lhe torna dócil, compreensiva, generosa e bondosa, pronta para abrir mão de si e suportar tudo em nome do amor materno e da família.

Não posso deixar de pensar como a maternidade é uma prisão para boa parte das mulheres, que vê seus sonhos e planos encerrados a partir do momento em que coloca um filho no mundo. Mulheres que precisam se desdobrar em dez para sustentar, criar e dar amor a filhos abandonados pelos pais, que têm de parar de estudar ou são privadas da própria individualidade.

Não dá para ignorar o fato de que a sociedade é cruel quando enaltece a figura do pai que cumpre minimamente sua função e execra a mulher que por algum motivo ou momento coloca a própria vida em primeiro lugar.

Como fazem bem o trabalho de incutir culpa nas mães pelos mais variados motivos: por não conseguirem amamentar ou parir de determinado jeito, por não adorarem exercer todas as funções que as crianças impiedosamente exigem, por quererem algo além de ser mãe.

Também não dá para deixar de pensar em como se sentem as milhares de pessoas que não se encaixam no modelo de família que a sociedade patriarcal faz tanta questão de vender como perfeito e o único aceitável.

Sim, criar filhos pode ser bom, mas é melhor se for uma tarefa compartilhada e se houver amparo da sociedade, que nos passa a mensagem dúbia de que toda mulher só será completa se tiver filhos, enquanto ao mesmo tempo não facilita em nada a vida das mães. E, não, não é verdade que existe apenas um modo de se fazer isso.

Ter filhos deve ser escolha, claro, e acredito plenamente que é possível ser feliz e se sentir realizada sem filhos. No entanto, vejo muitas meninas e mulheres optando por não ter filhos não porque não querem ser mães, mas porque veem a maternidade como abnegação e sacrifícios, como o fim de sua liberdade e de sua condição de indivíduo. E como lhes dizer que estão equivocadas?


*Texto originalmente publicado na página do "Quebrando o Tabu

quarta-feira, 4 de maio de 2016

Intolerância de gênero

Quando frequentei o ensino fundamental e médio, ninguém tratava com profundidade questões como gênero e sexualidade. Até se falava em sexo nas aulas, mas sempre do ponto de vista biológico. Também pouco se discutiam temas relevantes a outras etnias ou minorias, e toda vez que isso ocorria, fazia-se a partir de uma visão etnocêntrica, masculina, heterossexual, cisgênera e branca. Aqueles que pertenciam a outras categorias (mulheres, negros, indígenas, homossexuais, travestis, enfim, o “resto”) eram, quando muito, apenas mencionados, afinal nem sempre é possível esconder as pessoas embaixo do tapete.

Ainda bem que os tempos mudaram, dirão alguns. Passaram-se anos (nem tantos assim) desde que me sentei pela primeira vez à mesa da escola. Hoje, minhas filhas o fazem, o que despertou ainda mais meu interesse pelas discussões sobre os Planos Nacional e Estadual de Educação, que traçam diretrizes para o ensino no país.

Pois bem. Se é verdade que na atualidade as ditas minorias estão representadas em movimentos sociais e políticos e em grupos nas redes sociais, também é fato que há enorme resistência para tratar nas escolas os temas propostos por pessoas que não se enquadram na descrição dos “homens do poder”.

Políticos, religiosos e lobbystas se organizaram para exigir que não se discutam metas de combate à desigualdade de gênero, à discriminação racial e de orientação sexual no Plano Nacional de Educação. E estão se saindo muito bem, como temos visto recentemente. Assim como aconteceu comigo anos atrás, as crianças e adolescentes de hoje continuarão engolindo a versão masculina, heterossexual, branca, cristã e cisgênera da nossa história. Como toda versão única, ela é limitada e parcial, pois não abarca todas as realidades e deixa de fora questões de máxima importância para a sociedade, ainda mais se considerarmos que somos o país que mais mata transexuais no mundo e o quinto colocado em casos de violência contra a mulher.

O que pensam as mulheres cisgênero sobre isso? Não interessa. E as mulheres e homens trans? Tampouco. Homossexualidade, então, não deve ser sequer mencionada. A desculpa dos nobres senhores é que tratar essas questões em sala de aula dá espaço para a temida - atenção agora - ideologia de gênero. Buuuu.

Mas o que seria essa ideologia e por que ela assusta tanto os distintos? Ela é, antes de tudo, uma mentira inventada para impedir a discussão de questões de gênero e igualdade nas escolas. Ao combater a ideia (errada, diga-se) de que gênero é determinado biologicamente e 
negar que identidade de gênero deve sempre “bater” com o órgão sexual com que nascemos, como se fôssemos definidos por um pênis ou uma vagina, estaríamos colocando a família e a ordem social em perigo.

Além de extremamente limitante, essa noção de determinismo biológico está errada. Existem, por exemplo, pessoas que nascem com pênis e se identificam com o gênero feminino. E o que elas são? No caso, mulheres. Qual o problema de se ensinar isso às crianças? Por acaso aprender a realidade lhes oferece perigo? É melhor mentir para manter uma ordem social hipócrita?

Para mim, está bastante claro: o medo de certos religiosos e pessoas que são referência normativa da sociedade, como bem salientou a cientista social Maíra Kubík Mano, no artigo de hoje para o blog “Agora é que são elas”, é perder os privilégios que os brancos, ricos, heterossexuais e cisgêneros têm sobre os demais. Apenas isso.

O único risco que nossas crianças correriam caso passássemos a lhes ensinar que há outras narrativas, outras possibilidades e outras vivências e que é preciso considerá-las e respeitá-las para construirmos uma sociedade mais igualitária é fazê-las pensar e questionar. E isso, meus amigos e amigas, é um perigo para a estrutura dominante.

terça-feira, 26 de abril de 2016

Elas não usam camisinha


As meninas não usam camisinha. Ou melhor, até usam, mas em geral quando os meninos impõe. E eles, sabemos, não curtem muito preservativo.

Diversas pesquisas revelam que as adolescentes relutam em exigir o uso da camisinha nas relações sexuais. E há vários motivos para isso.

A adolescência é um período de incertezas e descobertas. As mudanças físicas, psicológicas e comportamentais pelas quais os jovens passam nessa fase são intensas. Se iniciar a vida sexual é difícil para os meninos, criados para serem machos e viris, imaginem para as meninas, ensinadas a controlar e por vezes negar a própria sexualidade.

Leia também: O desamparo das mulheres com zika


O resultado é que 40% das meninas entre 14 e 25 anos não usam preservativos. Um terço dessas jovens (32%) já engravidou; 12,4% sofreram abortamento espontâneo ou provocado. (Fonte: II Lenad, 2012.)

As mulheres, além do risco de engravidar, são mais suscetíveis, por questões anatômicas, a contrair doenças sexualmente transmissíveis nas relações heterossexuais. E o risco de gerar outra vida é, muitas vezes, assumido apenas pelas meninas, que têm de se virar para conseguir abortar ou criar o filho do rapaz que se nega a usar preservativo.

Não à toa, a infecção pelo HIV vem crescendo entre as adolescentes de 13 a 19 anos. Desde 1998, o número de meninas infectadas pelo vírus supera o de meninos (Fonte: Ministério da Saúde, 2007).



Sabemos que as meninas são criadas de maneira diferente dos meninos. Enquanto estes são estimulados a praticar sexo desde muito novos, elas aprendem que não devem demonstrar desejo. Essa diferença, é claro, também aparece mais tarde, na hora de exigir a camisinha.

Como esperar que a jovem, depois de aprender que é preciso esconder seus desejos sexuais e ser cordata e submissa, de repente passe a se impor e exigir o uso de preservativo? Como querer que ela seja responsável se não lhe damos ferramentas para que exerça a liberdade sexual de que vai dispor no futuro?

As meninas só vão se proteger se sentirem-se seguras e valorizadas. Para isso, precisamos falar de sexo com elas desde cedo, ensinar-lhes que se respeitar não é negar seus desejos nem seguir uma cartilha de comportamentos e sim saber estabelecer relações saudáveis, em que suas vontades sejam acatadas.

É necessário que entendamos, de uma vez por todas, que as meninas também têm desejos e que, de uma forma ou de outra, eles serão expressados. Resta saber em que condições queremos que isso aconteça.

*Texto originalmente publicado na página do "Quebrando o Tabu"

quarta-feira, 20 de abril de 2016

O que sobra para quem não é recatada e 'do lar'?

Bela, recatada e “do lar”. Poucas vezes se definiu em tão poucas palavras aquilo que se espera das mulheres. Quem achava que o estereótipo da mulher que vive para cuidar da família sem chamar a atenção para si havia ficado para trás, deve ter se espantado com a descrição feita pela revista “Veja” da mulher do vice-presidente Michel Temer, Marcela Temer.

Para mim, no entanto, não foi surpresa. Sem entrar no mérito político, a própria presidente Dilma foi alvo de várias reportagens sexistas e piadas preconceituosas justamente por fugir da imagem que Marcela Temer ostenta. Aliás, arrisco dizer que a reportagem desta semana tenha exatamente o intuito de enaltecer uma figura que é quase o oposto da presidente, com objetivos políticos.

Imaginemos que Temer fosse mulher e a revista entrevistasse seu marido, um homem 43 anos mais jovem. Primeiro, a repórter falaria sobre suas roupas, o modo como penteia o cabelo e cuida da pele, a forma como cria o filho do casal e depois terminaria elogiando o fato de que vive à sombra da esposa, quase sempre esperando, pacientemente e sem reclamar, por um minuto de atenção da companheira ocupada. Inconcebível, certo?

Não se trata de condenar Marcela. Ela provavelmente tem muito mais a mostrar, e como qualquer mulher, tem direito de ser quem é e fazer as escolhas que lhe garantam a vida que deseja. O triste é ver que a sociedade ainda enaltece uma imagem que não corresponde à maioria das mulheres.

Isso é feito de formas sutis e outras nem tantas. Todas as vezes em que dizemos a uma menina que ela precisa tomar cuidado com as roupas que escolhe, que ela não deve ter muitos namorados nem fazer sexo com “qualquer um”, que é tarefa dela e só dela cuidar dos filhos e da casa e ainda encontrar tempo e disposição para manter a beleza estamos corroborando a imagem da mulher ‘bela, recatada e do lar’.

O recado que a revista e boa parte da sociedade nos dão é para que reconheçamos nosso lugar e não ousemos sair dele. E esse lugar é, de preferência, recheado de vestidos longos e discretos em tons pastel, cercado pela família, ofuscado pelo marido, onde haja espaço apenas para, em voz baixa e com doçura, concordar e garantir a paz para que o parceiro brilhe. A ele, sim, estão disponíveis todos os espaços da sociedade.

Só há um problema: nem toda mulher aceita ocupar esse lugar. Há quem queira gritar, usar roupa curta e colorida, pintar o cabelo de abóbora, tatuar um dragão no braço, usar piercing na língua, abrir mão de constituir família e ainda assim ser respeitada.


É lamentável que, com tanto lugar disponível e tantas possibilidades, a gente ainda hoje tenha que meter o pé na porta para ocuparmos os espaços que desejamos.

*Texto originalmente publicado na página do "Quebrando o Tabu"

quarta-feira, 6 de abril de 2016

O mito da mulher louca

O filósofo francês Michel Foucault, em “História da Loucura”, chama a atenção para o uso, ao longo da história, do conceito de normalidade como forma de controle social. Aqueles cujos comportamentos e atitudes subvertem a ordem estabelecida são reprimidos e controlados, sob a ameaça de serem chamados de loucos e, em última instância, afastados da sociedade (“eliminação dos a-sociais”, segundo o autor). Portanto, quem determina o que é normal exerce poder sobre os demais.

São inúmeros os casos de mulheres consideradas desequilibradas e muitas vezes internadas em conventos ou sanatórios por engravidarem de quem não deveriam, por se recusarem a casar com quem não desejavam ou ainda por lutarem contra a opressão a que lhes submetiam.

Mesmo sabendo que existem doenças psiquiátricas (não pretendo negá-las), podemos garantir que Maria I de Portugal, Joana de Castela, Camille Claudel, Frances Farmer, Sylvia Plath e tantas outras que não por coincidência assumiram atitudes contrárias ao que se esperava delas sofriam de fato de patologias? Será que necessitavam mesmo de tratamento ou esse foi o modo que a sociedade encontrou de desmerecê-las por sua ousadia?

Na atualidade, o mito da mulher louca ainda serve como uma luva para deslegitimar e desqualificar aquilo que as mulheres dizem e fazem. Não conheço nenhuma mulher que nunca tenha sido chamada de maluca, doida, histérica, descontrolada, desequilibrada ou qualquer coisa do gênero. Quando ela assume posições de poder, ou seja, subverte a ordem implícita de que não deve aventurar-se a abandonar seu lugar subalterno, as alusões à sua loucura são ainda mais evidentes.

É claro que acostumamos a nos chamar de loucos o tempo todo, homens e mulheres. Qualquer comportamento mais agressivo ou fora do comum é logo considerado desequilibrado, sem grandes prejuízos para ninguém. Não é disso que falo. Refiro-me à tentativa de questionar a competência, atitudes ou sentimentos de uma mulher atribuindo-lhe uma pretensa loucura.

Vivemos um momento político difícil. Mesmo assim, é preciso resistir a generalizações perigosas. Dilma não é louca. Janaína Paschoal também não. São mulheres bem sucedidas profissionalmente, passíveis de críticas quanto a seu desempenho, mas que nada têm de malucas. Devem ser responsabilizadas por suas atitudes, mas não agredidas com frases preconceituosas, que só fazem reforçar estereótipos extremamente nocivos, contra os quais lutamos.

Deixemos em paz os loucos, sejam eles os que sofrem de patologias ou os que apenas ousam transgredir as leis da sociedade.


*Texto originalmente publicado na página do "Quebrando o Tabu"

quarta-feira, 23 de março de 2016

Patologização da violência contra a mulher


Louise Ribeiro, 20 anos, foi assassinada pelo colega Vinícius Neres, 19 anos, porque, segundo o autor do crime, a moça se recusou a namorá-lo. O crime ocorreu dentro da Universidade de Brasília (UnB), onde ambos estudavam, há alguns dias.

Esse tipo de homicídio, em que o homem mata em razão do gênero, tem nome: feminicídio. É importante dar nome aos bois porque em geral esse crime é acompanhado de uma tentativa torpe de justificá-lo e desqualificá-lo. A vítima de feminicídio, não importa o que digam, morre única e exclusivamente por ter nascido mulher.

Muito se comentou sobre a frieza de Vinícius ao relatar o crime. Realmente, o cara é um poço de insensibilidade que impressiona até o mais cruel dos assassinos. Mas a impassibilidade do criminoso também revela algo importante: nossa sociedade nunca considerou, historicamente, atitude muito grave matar uma mulher.

O Brasil está em quinto lugar entre os 83 países membros da ONU em número de homicídios de mulheres. Segundo a ong Action Aid, todos os dias 119 mulheres são assassinadas no mundo todo por parceiros, ex-parceiros e parentes próximos.

Venho há tempos chamando a atenção para o perigo da patologização dos perpetuadores de atos violentos contra a mulher. É claro que existem psicopatas e pessoas com outros transtornos psiquiátricos, mas eles nem de longe são a maioria dos homens que cometem violência de gênero. Os casos de estupro, violência doméstica e feminicídio, como o de Louise, são frequentes porque são tolerados socialmente e cometidos por homens comuns.

Não à toa, recebem nomes quase bonitos como “crime passional”, “atos de ciúme” e “sexo não consentido”. Sempre que falo isso, surgem homens dizendo: “Alto lá! Você está afirmando que todos os homens são assassinos ou estupradores em potencial?” Não, não estou. “Então quer dizer que os homens que matam e estupram não são todos doentes mentais?” Sim, é isso mesmo, a maioria não sofre de nenhuma patologia.

Conhecer o problema é o primeiro passo para combatê-lo. Não adianta nos escondermos atrás de doenças psiquiátricas porque é difícil aceitar que a violência contra a mulher é oriunda de uma sociedade machista e patriarcal, que sempre defendeu que as mulheres são subalternas aos homens. É essa ideia de propriedade e inferioridade que torna possível a alguns homens disporem da vida das mulheres como lhes aprouver.

Louise não morreu porque foi imprudente, irresponsável ou pouco cautelosa. Morreu porque era mulher e teve a ‘ousadia’ de dizer não a um rapaz jovem como ela, que desfrutava dos mesmos espaços, tinha os mesmos amigos, frequentava os mesmos lugares. Nossa sociedade falhou ao protegê-la dele.

 Quantas meninas e mulheres ainda vamos deixar morrer?

*Texto originalmente publicado na página do "Quebrando o Tabu"

terça-feira, 8 de março de 2016

O que querem as mulheres

Todo 8 de março é a mesma coisa: canso de ouvir frases como: “Mas dia da mulher é todo dia”, “Se tem um dia da mulher, por que não tem um dia do homem?”, ou ainda “Parabéns pelo seu dia”. É preciso entender o sentido da data. Esse não é um dia de celebração, mas de exigir direitos. Tentar transformá-lo em uma data comemorativa como o Dia dos Namorados e encher as mulheres de flores e bombons é esvaziar seu significado e destitui-lo de importância.

O Dia Internacional da Mulher serve para lembrar as desigualdades de gênero, tão comuns no Brasil e no mundo e para aproveitar espaços e discutir essas disparidades. A data foi reconhecida pela ONU na década de 1970, mas avançamos pouco desde então, no que diz respeito a direitos.

Embora nem todas as mulheres concordem sempre, algumas reivindicações são compartilhadas por quase todas as mulheres que desejam viver em uma sociedade mais igualitária:

1) FIM DAS VIOLÊNCIAS
A cada 1:30 hora, uma mulher morre de causa violenta no país (IPEA). Pelo menos 4 mulheres foram assassinadas por dia pelos parceiros ou ex-parceiros em 2013 (Mapa da Violência 2015). Em 2014, 405 mulheres sofreram violência por dia e precisaram de atendimento no SUS (MdV), sendo que quase 68% dos casos foram cometidos por parentes imediatos ou parceiros/ex-parceiros.

Os dados servem para ilustrar aquilo que já sabemos: as mulheres são as principais vítimas de violência doméstica. Além desse tipo de agressão, somos assediadas nas ruas, no trabalho, nos meios de transporte, em locais públicos e privados. Foram 47 mil ocorrências de estupro denunciadas (atenção para isso, pois sabemos que esse é um dos crimes em que há mais subnotificações) apenas em 2014 (Fórum Bras. de Segurança Pública).

Ainda estamos engatinhando n
a prevenção e na punição dos casos de violência contra a mulher e no acolhimento e tratamento, quando é o caso, das vítimas. Hoje o sentimento mais comum quando se conversa com as mulheres sobre violência é um só: medo.

2) GARANTIA DOS DIREITOS SEXUAIS E REPRODUTIVOS
Queremos direitos que nos permitam viver a própria sexualidade com prazer e liberdade. Para isso, precisamos de educação sexual nas escolas, acesso a métodos contraceptivos, orientação sexual e cuidados com a saúde em postos, unidades de saúde e hospitais.
Queremos ter direito ao planejamento familiar, que inclui a descriminalização do aborto. A mulher que decide abortar precisa ser amparada. 
Uma em cada cinco mulheres já abortou (PNA). É correto deixar milhares de mulheres abandonadas à própria sorte? Até quando vamos ignorar o fato de que são as mulheres pobres que morrem em procedimentos mal feitos?

3) EQUIDADE SALARIAL E DIVISÃO DO TRABALHO DOMÉSTICO
Mulheres ganham 68% do salário dos homens (Fórum Econômico Mundial); 90% das mulheres realizam tarefas domésticas, que incluem o cuidado com os filhos, enquanto 40% dos homens desempenham as mesmas atividades (Unicamp).Elas dedicam 25 hs semanais à casa e à família; eles, 9 hs por semana. 
Há 5,5 milhões de crianças que não foram sequer registradas pelos pais. Isso sem contar as milhares de mães que criam os filhos sozinhas.
Reivindicamos salários iguais e maior participação dos homens no cuidado com a casa e os filhos, que, afinal, são tanto deles quanto nossos.Portanto, os cuidados diários com as crianças e a responsabilidade pela sua educação devem ser atribuições de ambos.

4) Por fim, é importante lembrar que não existe uma categoria hegemônica chamada “mulheres”. Somos muitas, e somos diferentes, com demandas distintas.
É preciso sempre levar em conta a classe social, a raça, a orientação sexual e outros fatores quando discutimos direitos das mulheres. 
Mas se é verdade que somos várias e diversas, também é fato que juntas somos mais fortes. E que ainda há muito trabalho a fazer.



*Texto originalmente publicado na página do "Quebrando o Tabu"

terça-feira, 1 de março de 2016

Mulher cuida, homem ajuda

Quando um homem e uma mulher decidem se casar, pressupõe-se que os cuidados com a casa se multiplicarão, principalmente se eles decidirem ter filhos. Afinal, haverá mais roupa para lavar, comida para preparar, compras de supermercado, faxina, uma infinidade de tarefas que tendem a aumentar à medida que o número de habitantes que convivem sob o mesmo teto cresce.

Como os afazeres domésticos no mínimo dobram, seria óbvio que a carga de trabalho aumentasse para ambos, certo? Errado. Segundo a pesquisa PNAD realizada pelo IBGE (2014), os homens solteiros e com filhos gastam mais tempo com os afazeres domésticos do que os homens casados e com filhos, ao passo que as mulheres casadas passam muito mais tempo cuidando da casa do que as solteiras e com filhos.

Uma mulher solteira que tenha filhos gasta cerca de 22 horas semanais com as tarefas domésticas. A mesma mulher com filhos mas casada despende quase 30 horas por semana com esses afazeres. Ou seja, a mulher cujo parceiro vive na mesma casa que ela trabalha mais, embora haja um homem adulto ao seu lado que teoricamente poderia dividir a carga de trabalho. Grosso modo, isso significa que boa parte dos homens que se casam passa a contar com uma empregada doméstica em tempo integral que assume sua parte na divisão das tarefas do lar: a própria esposa.

O resultado do acúmulo de funções é bastante conhecido. As mulheres assumem jornadas duplas de trabalho, fora e dentro de casa, enquanto os homens podem se dedicar com mais afinco à profissão e a atividades que não estejam relacionadas à família.

Essa visão é bastante diferente da ideia de amor romântico, em que a mulher é salva pelo príncipe encantado, que ouvimos desde crianças. Na verdade, o casamento é, para boa parte das mulheres, uma prisão em que se acumulam cobranças, funções e infelicidade. Tendo de dedicar horas do que seria seu tempo livre a tarefas domésticas e aos cuidados com os filhos, sobra muito pouco tempo para a mulher cuidar de si, da sua saúde, projetos e sonhos.

Então pergunto: quando é que os homens vão deixar de achar que os afazeres domésticos e principalmente os cuidados diários com os filhos são tarefas que cabem à mulher e começar de fato a dividir o trabalho doméstico? E quando as mulheres vão parar de acreditar que essas são atribuições exclusivamente delas? Que tipo de adultos criaremos ao passarmos a nossos filhos a mensagem de que a mulher deve se desgastar em tarefas domésticas intermináveis enquanto as crianças e marido são preservados?

Não tenho essas respostas, mas sou otimista. Acho mesmo que as mulheres mais jovens estão fartas de viver relacionamentos que mais se assemelham a prisões e exigindo mais parceria de seus companheiros. No entanto, as relações ainda são bastante desiguais. O resultado disso são crianças e adultos mimados, criados por mulheres cansadas que não se poupam para servir e agradar sua família, mesmo que ela se assemelhe, muitas vezes, a um carrasco.


*Texto originalmente publicado na página "Quebrando o Tabu"

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

Mulheres criam projeto para ajudar crianças com microcefalia

Cida Nicolau e as filhas Maria Clara Vieira e Maria Júlia Vieira, moradoras de São Bernardo dos Campos (SP), ficaram, como a maioria dos brasileiros, muito tocadas quando as notícias sobre o aumento dos casos de microcefalia relacionados ao Zika virus começaram a surgir. Sensibilizadas pelas histórias de mulheres pobres que têm de cuidar de filhos com sérias limitações físicas e cognitivas, resolveram agir e criaram a plataforma online Cabeça e Coração (cabecaecoracao.com), que conecta quem precisa de ajuda e quem quer ajudar.

A jornalista Maria Clara conta que o primeiro passo foi ir atrás das mães em comunidades das redes sociais voltadas para os casos de microcefalia e convidá-las a fazer parte do projeto. Após uma breve entrevista e a verificação da veracidade da história, as mães montam uma lista dos itens de primeira necessidade de que mais carecem, fornecem seu endereço e conta bancária e aguardam a publicação do seu pedido no site. A ajuda lhes chega diretamente, sem intermediários.

Há duas maneiras de contribuir, enviando os itens pelo correio diretamente para a casa da criança ou fazendo uma transferência bancária para a conta da mãe da criança.

“Decidimos usar a tecnologia para facilitar o contato entre as mães e as pessoas que querem ajudar”, explica Maria Clara. “O retorno tem sido muito positivo, as mães compartilham suas histórias na nossa comunidade no Facebook.”

Nem todas as mães cujos filhos têm microcefalia tiveram zika, mas suas histórias são parecidas: mulheres jovens e moradoras de regiões carentes do país cujos filhos com microcefalia alteraram totalmente a rotina da família. Algumas foram abandonadas pelos companheiros ao receberem o diagnóstico. Boa parte tem outros filhos pequenos, e muitas moram muito longe dos centros de tratamento especializados, sendo obrigadas a viajar horas para oferecer ao bebê os cuidados necessários.

O caso de Daniele, moradora de Recife (PE) e cujo filho Juan Pedro tem microcefalia, ilustra bem a situação de desamparo em que essas mulheres se encontram. Mãe de outra criança de 11 anos e abandonada pelo companheiro, que “não aguentava o choro do bebê”, Daniele ainda não sabe se conseguirá manter o emprego de recepcionista de que tanto necessita, pois o filho requer assistência integral.

Já Laurineide, desempregada e moradora de Monteiro (PB), precisa viajar cerca de 400 km até Recife três vezes por semana para que o filho tenha acesso ao tratamento. A prefeitura da cidade fornece o carro e o combustível de ida, mas ela precisa pagar o combustível de volta e uma refeição na cidade. Gasta R$ 120,00 por vez.

As idealizadoras da plataforma, que não recebem nenhum centavo pelo trabalho, pretendem ampliá-la, atraindo mais mulheres e interessados em ajudar. Para tanto, contam com a divulgação e a boa vontade daqueles que compreendem a gravidade da situação dessas mulheres e crianças que, na enorme maioria dos casos, não têm a quem recorrer.

*Matéria originalmente publicada no drauziovarella.com.br

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

Maternidade idealizada


Esta semana, minha TL foi invadida por fotos de amigas e conhecidas exaltando a beleza e a alegria da maternidade. Vou deixar de lado o fato de que essa ‘campanha’ possa ser armação dos grupos contrários à descriminalização do aborto e me concentrar apenas na discussão do que chamo de “maternidade plena”.

Nunca considerei a ideia de não ter filhos. Aliás, essa possibilidade sequer passou pela minha cabeça. Então, quando achei que havia chegado a hora, planejei minha família e tive duas filhas, duas meninas maravilhosas que me enchem de alegria e amor. Contudo, elas também me fizeram pensar até que ponto a maternidade, para mim, havia sido mesmo uma escolha, em seu sentido mais amplo. Melhor: até que ponto ela é uma escolha para qualquer mulher.

Quando crianças, aprendemos que somos dotadas de um instinto maternal tão poderoso e natural quanto sentir fome e sono. Dizem-nos que nenhuma mulher escapa da vontade de ter, cuidar, amparar e amar os filhos incondicionalmente, pelo menos não uma mulher que não seja egoísta ou egocêntrica. Afinal, somos generosas, maternais, compreensivas, amáveis, e nossa vida será desprovida de sentido se não seguirmos esse instinto natural.

Só que a maternidade não é natural, pelo menos não para todas. É algo construído a duras penas, no dia a dia, durante anos. Não é tarefa fácil, implica doação, comprometimento, exige que abramos mão da própria vida em muitos sentidos, em vários momentos. E, adivinhem?, criar filhos às vezes é duro, outras é chato, quase insuportável. E isso nada tem a ver com amor.

A noção idealizada da maternidade não ajuda as mulheres a lidar com a maternidade real e suas contradições e dificuldades. Assim, como fazem com a ideia de amor romântico, em que há uma alma gêmea à sua espera para desfrutar uma vida de alegrias e prazeres, tentam nos empurrar que ser mãe é uma maravilha, algo para que todas as mulheres nasceram. E quem não experimenta esse sentimento sublime tem de aguentar os olhares inquisidores e os julgamentos alheios.

Realmente, há algumas mulheres que se sentem totalmente realizadas e completas sendo mãe. Para mim, é apenas parte do que sou, nunca me definiu. E não foi fácil admitir que não há nada errado com isso.

A sociedade tem uma relação ambígua com a maternidade. Ao mesmo tempo que a exalta, não facilita a vida da mãe. Na verdade, a maternidade pode ser uma forma de aprisionamento, já que os homens participam muito pouco dos cuidados diários dos filhos, as mães têm dificuldade para arrumar emprego, para estudar, para encontrar tempo para suas realizações pessoais e com frequência são consideradas más mães quando não exercem a maternidade do jeito mais convencional. Isso sem falar nas milhares de mulheres que criam os filhos sozinhas, que se veem presas em jornadas duplas para sustentar e cuidar dos filhos (lembremos que mais de 5 milhões de brasileiros não são sequer registrados pelos pais).

Ter ou não ter filhos deve ser uma escolha pessoal, e só poderemos fazê-la de fato se tivermos oportunidade de sermos outras coisas. É possível, sim, ter uma vida plena e realizada sem filhos, e cada vez mais mulheres vêm nos provando isso.

Quem escolher não ter filhos, não importa por qual motivo, não deve ser vista como uma mulher incompleta, não realizada, ao contrário, ela terá mais liberdade para explorar outras possibilidades. Quem decidir tê-los, precisa saber que enfrentará a tarefa mais difícil da vida, que em nada se assemelha à ideia de paraíso. Deve ter consciência que essa pode ser uma experiência maravilhosa, mas também pode não ser. E que tudo bem, desde que nos aceitemos como somos e busquemos nosso próprio caminho. Sem idealizações.


*Texto originalmente publicado na página "Quebrando o Tabu"